quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O desejo de sonhar e o representante da realidade

Continuando a série vozes conflitantes dentro de mim, eis aqui outras duas que não conseguem se reconciliar de jeito nenhum. O desejo de sonhar e o representante da realidade:

Certo dia em baixo de uma arvore estava sentado um menino que se chamava o desejo de sonhar. Era uma arvore grande que ficava do lado de fora das muralhas que cercavam a cidade onde viviam os homens grandes. A sombra dessa árvore era o seu lugar preferido. O barulho e a correria do mundo normal ficavam la dentro protegidas pelas muralhas da cidade. O engraçado era que o desejo de sonhar só se sentia protegido do lado de fora das muralhas, e nunca do lado de dentro. Lá ele se sentida morto, esmagado, sufocado. Sufocado por uma especie de vida que lhe era completamente alheia mas que era imposta por todos e martelada em sua cabeça sem a menor piedade. Então o desejo de sonhar vinha constantemente para a sua arvore querida que sempre lhe oferecia sombra e frutos sem lhe pedir nada em troca. Era o seu lugar no mundo. Se sentia bem ali. Porém nesse dia alguém apareceu para conversar com ele. Era um homem alto. De terno e gravata. Um profissional. Ele estava vindo de dentro da muralha para dizer algo ao desejo de sonhar que logo que o viu começou a morrer de medo. Pois pensava. Será que até aqui do lado de fora eles não me deixaram em paz? E eis que homem alto chegou mais perto, e assim foi a conversa entre os dois:

RR - Olá, eu sou o representante da realidade. Por acaso é você que é o desejo de sonhar?
DS - Sim, sou eu? O que você quer aqui?
RR - Eu quero ajudá-lo a se adaptar a vida em sociedade.
DS - Não, obrigado!
RR - Mas você não tem escolha. Você tem que viver em sociedade, senão morrerá!
DS - Prefiro a morte então. Suma daqui!
RR - Mas você é teimoso hein moleque. Que que há de errado com você? Lá dentro das muralhas exitem milhares de pessoas que todos os dias levam a vida do jeito que se espera deles. Porque você simplesmente não pode fazer o mesmo? Você é especial por acaso?
DS - Eu simplesmente não quero. Aquele tipo de vida não serve pra mim. Eu não quero uma vida sem sentido. Acordar, trabalhar, comprar, voltar a casa para ver televisão e dormir? Não, obrigado. Se não querer se sujeitar a isso é ser especial, então sim, eu sou. Agora me deixe em paz!
RR - Moleque presunçoso! Você fica aí sem fazer nada em baixo dessa árvore sem produzir nada. Imagine se os outros decidissem fazer o mesmo? Quem iria produzir comida, roupa, materiais? É preciso trabalhar, seu preguiçoso maldito.
DS - Preguiçoso maldito? Você já olhou para si mesmo? para sua alma? Você não trabalha e trabalha apenas como um meio de fugir de quem você é? Por preguiça de tirar algum tempo para tentar entender e descobrir quem você é o que você realmente quer da vida? Você é o ápice da preguiça. Da fuga. Do medo. Você veste esse terno maldito e usa esse nome trabalho para esmagar aos outros. Para deixá-los completamente alienados de si mesmo, assim como você é. Por isso você tem medo de mim. Eu ousei olhar pra mim. Olhar para a minha alma. Ver que eu tenho alma que pede desesperadamente socorro. Você é tão fingido que não tem nem mesmo coragem de vir aqui e me dizer que você aqui veio para tentar me destruir e não para me ajudar. Vá embora, demônio!
RR - Mas precisa ser tão cruel assim?
DS - Cruel? Você escraviza e destrói a alma de todos aqueles a quem você toca. E você vem dizer que eu sou cruel? Sim, sou cruelíssimo. E a verdade é que quero ver você morto. Suma daqui!
RR - Desculpe. Não sabia que isso te machucava tanto.
DS - Machucar? Machucar? Eu fui é torturado toda minha vida lá dentro. Rejeitado, esculachado. Eu sofria desesperadamente e não me davam nem mesmo o direito a sonhar. Nem isso. Você entende o que significa não poder viver nem mesmo minimamente exatamente a essência daquilo que você é?
RR - Desculpe. Eu nunca havia visto a coisa nesse sentido.
DS (com lágrimas nos olhos) - Saí daqui, e me deixe só, como eu sempre fui.
RR - Desculpe, sinceramente nunca havia pensado no seu lado. Nunca havia percebido que em você existia um ser humano também. E pra ser sincero um ser humano mais humano do que eu. Gostaria de me redimir do que sempre fiz a você. Gostaria realmente de te dar algo. Mas não sei o que posso te dar. Não sei o que eu tenho que você gostaria de ter.
DS - Eu só queria é ser aceito como eu sou. Eu sinto falta da sociedade. Da minha cama do meu quarto. Eu gostaria mesmo é de viver lá como eu vivo aqui. Simplesmente sendo eu mesmo. Assim inclusive não me importaria com as pessoas que simplesmente acordam, trabalham, compram, voltam para casa para ver televisão e dormem.
RR - Eu não posso garantir pelos outros meu caro amigo. Eu represento a realidade e eles são reais. Muito reais. E também humanos, mesmo que não apreça assim aos seus olhos. Mas te garanto que farei o melhor que posso para que você encontre o seu lugar. Onde quer que ele seja.
DS - Há bondade em você. Nunca havia visto isso.
RR - É porque até hoje eu mesmo não sabia disso. Mas você me inspirou meu caro amigo. Você tocou algo em mim. E eu estou grato a ti.
DS - Eu aprendi algo com você. Vejo que as pessoas lá de dentro também são humanas. E elas sofrem. Sofrem quietas, sem nem mesmo perceber isso. Por sofrerem tanto, perdem a capacidade de sonhar, e por isso se tornam violentas com quem tenta sair desse ciclo. Se eu pudesse ao menos levar esperança a eles ao invés de simplesmente tenar matá-los assim como eles fizeram comigo...
RR - E eu confio em ti meu caro amigo. Vejo ódio, raiva e dor em ti. Muito justo. Eu entendo. Mas vejo também que não é isso que você quer trazer de volta para a cidade. Você quer transformar isso em algo diferente. Em algo doce. Meigo. Suave. Humano. E por isso você veio aqui pro lado de fora da muralha. No fundo foi para transformar essa energia que está em ti. Para encontrar essa leveza perdida que está embaralhada em sua alma. No fundo você fez isso não por ódio a cidade e às pessoas que lá vivem, mas sim por amor à elas.

E de repente as lágrimas do desejo de sonhar que antes eram de dor, agora começaram a ser de esperança e aceitação. Era um choro bonito e libertador. O representante da realidade nunca havia visto um choro daqueles. E era real. O amor naquele menino era real, apesar de tudo que ele sofreu e de todas as feridas que haviam em sua alma. Assim os dois se abraçaram. Choraram juntos. Deram adeus um ao outro. E cada um voltou ao seu lugar. Um para a cidade e o outro debaixo da árvore. Mas agora já não se odiavam mais. Eram amigos. Se respeitavam, e por isso entenderam que ainda não era hora de morarem juntos. Mas que esse dia chegaria. Pelo menos assim os dois agora desejavam.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O anarquista e o existencialista


Em algum lugar no mundo da minha imaginação viviam duas personalidades que não gostavam muito uma da outra. Eu gostava muito das duas, mas elas por nada nesse mundo conseguiam se aceitar e viver juntas. Então foi que decidi fazer eu mesmo um encontro entre elas aqui nessa folha de papel para ver no que que dava. E assim foi.

A - Ah, você outra vez por aqui seu conservador maldito. Não consigo mudar nada nesse lugar por sua causa. Você sempre vem com o seu blá blá blá chato querendo me mostrar o porque de minha insatisfação. Me deixe em paz, seu louco.

E - E a culpa é minha de você ser tão cego de si mesmo? Eu estou aqui querendo o seu bem. Querendo a sua iluminação. Por isso chamo atenção sempre pra dentro de você. Você quer mudar o mundo pois está insatisfeito consigo mesmo.

A - Louco! Você me esmaga. Eu sei que não sou um ser perfeito, um iluminado. Que tenho neuroses, que sou fraco. Mas caramba! Você não me ajuda nada mantendo vivas do lado de fora toda essa sujeira. Há que derrubar esse estado com essas leis inflexivéis que não vieram de nenhum de nós. Enxergue você seu maníaco o que está a seu redor. Pare de justificar o injustificável. Chega de tirania por aqui. Vamos ser livres!

E - Mas livre de que? Vá lá, mate o rei. E depois? Quem você eligirá no lugar dele para simbolizar o tirano dentro de você.

A - Me deixe em paz alma diabólica. Quero matar o rei e qualquer um que tome o seu lugar. Não nego que possa haver um tirano escondido dentro de mim. Mas sei que se há algum, também quero matá-lo. Em qualquer lugar que houver um tirano, alguém se opondo a minha liberdade, hei de lutar contra ele.

E - Mate-o dentro de si que ele desaparecerá do lado de fora. Ele estará lá, mas você não o notará e ele não terá efeito nenhum em você.

A - Vem cá, você é Deus agora? De onde você tira essas ideias? Quem disse que ele morrerá se eu matá-lo dentro de mim? E porque não simplesmente matá-lo do lado de fora e vê-lo morrer dentro?

E - Menino, eu observo o mundo, eu observo as pessoas. Eu entendo de sua frustração, de sua sede de liberdade. Mas ela não será satisfeita apenas mudando o lado de fora.

A - Você não respondeu as minhas perguntas. Não estou dizendo que encontrarei a iluminação matando o rei do lado de fora. Só estou dizendo que sem ele destroçando a vida de todos nós, nós poderíamos viver uma vida com muito mais liberdade, amor e alegria. Não nego a importância da mudança interior. Apenas digo que prefiro fazer minha revolução do lado de dentro vivendo um outro tipo de vida. Inclusive não acha você que ao destronarmos o rei seremos muito mais livres, inclusive para nos mudarmos?

E - Confesso que você não é tão imaturo quanto eu te julgava.

A - Você consegue escutar esse coração que pulsa dentro de mim. Você escuta isso?

E - Confesso que não entendo muito sobre o coração.

A - O que houve com você?

E - Eu não sei amar. Eu não consigo amar.

A - Há alma dentro de você caro amigo de outro mundo. Eu sinto sua alma.

E - O que você quer dizer com isso?

A - Você sofre por ter perdido o coração. E por isso você quer impedir a todo o tempo que as pessoas façam suas revoluções. Pois elas fazem isso por amor, e você faz a sua busca interior por falta de amor. Você está apenas em busca de seu coração. Quando se tem coração, a mudança vem por si só em todos os lados. Dentro e fora.

E - Você fala bonito meu jovem valente. Mas porque você disse que eu tenho alma.

A - Não sei. Eu não entendo bem essas coisas. Meu coração bate forte dentro de mim, porém existe uma leveza que sinto em você que ainda não encontrei. Essa sua leveza eu chamo de alma. Acho que talvez isso falte em mim.

E - Caro amigo, eu entendo o que você fala. Eu sinto o que você fala. Sinto o seu amor. Eu o julguei estúpido por sua juventude e espontaneidade. Mas agora vejo que isso no fundo era apenas fruto de um coração belo e nobre. E que estúpidos sempre foram os meus julgamentos. Usava o discurso da reforma interior apenas para criar culpa em você. Não que ela não seja importante. Mas eu usava algo importante como ferramenta para criar culpa e apatia. Assim talvez você ficasse cabisbaixo, sem graça e sem vida assim como eu.

A - Não precisa fazer contigo o que você até agora fazia comigo, caro amigo. Nós estamos juntos nessas terras. E eu não quero fazer a minha revolução sem você. Você tem alma. Existe beleza em sua leveza. Levante essa cabeça, sábio camarada. Venha. Faremos juntos a nossa festa. Existem outros que estão a nossa espera.

E - Festa? Tenho eu o direito de celebrar alguma coisa? Eu não faço nada além de colocar dúvidas na cabeça dos outros, além de faze-los desistirem de seus sonhos.

A - Não, meu caro poeta. Há muito em você que você ainda não conhece. Houve muita confusão dentro de você. E ainda há. Mas como eu disse, eu sinto uma alma boa dentro de você. Eu sou jovem. Tenho força e vigor. E por isso a minha bondade vem ao mundo por esses caminhos. Mas no seu caso é diferente. A sua bondade vem por outros meios. E ela está vindo. Ela sempre veio. Eu não sei bem explicar pois no fundo também não entendo. Ainda sou jovem demais para entender o que vejo em você. Mas agora que vejo isso, não posso deixá-lo simplesmente por aí. Você não será apenas um convidado camarada para nossa festa. Mas sim um convidado de honra. Há muito em você que todos nós precisamos descobrir ainda. Precisamos de você.

E - Eu gosto muito de você meu caro amigo. Desculpe por tê-lo atrapalhado por tanto tempo.

A - Não precisa disso velho amigo. Quem sabe no fundo não havia também uma razão para isso tudo. Ou mesmo que não houvesse. Hoje o dia é outro. Eu sou outro e você é outro.

E - E contra o que lutaremos?

A - Lutaremos pelo amor e pela liberdade. Por um mundo mais humano. Apenas sonhamos em ser humanos.

E - E como faremos isso?

A - Juntos!

Foi quando um grande sorriso surgiu no rosto do existencialista. Ele passava tardes e tardes em suas meditações tentando chegar ao centro de si mesmo. Buscava a sabedoria de si mesmo. Mas até aquele dia ele não havia sorrido nenhuma vez fazendo isso. Ao ver um jovem de coração bom que chegou perto dele ele pôde também encontrar um pouco de amor dentro de si. E assim percebeu que sentir amor é uma mudança existencial muito grande. Ele havia sido finalmente aceito por alguém. Ele havia sido aceito como ele é. E isso também muda tudo. Você pensa então que ele se arrependeu de suas meditações? Claro que não. Havia muita bagunça em sua alma anteriormente. Ele pode até nem ter percebido direito o que aconteceu. Mas foram suas meditações sobre si e sobre a vida que abriram espaço para que o amor surgisse novamente. O seu coração ainda não está completamente de volta. Mas já está voltando. Está a caminho. E sua alma cresceu. Sua bondade em breve será não apenas na emoção, mas será também existencial. E o anarquista? Ele aprenderá muito ainda com o sábio mestre que acaba de chegar. E em algum lugar de seu coração ele já sabe disso. Uma grade amizade está a caminho. Ainda é muito cedo para ver os frutos que virão. Mas a amizade está a caminho. E o tempo mostrará o que está para vir. E quer saber? No fundo eu gosto muito da história dos dois. São dois jovens caminhando para um lugar que não sabem qual é. Mas caminham pois seguem seus corações e suas almas. E ainda quero com os dois muito aprender. E também desfrutar de suas companhias e de suas viagens. 


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Saindo do armário

Tudo bem vou ter que confessar. A partir de hoje meu blog vai começar a ser mais sincero comigo. Ta bom. La vai. O que aconteceu é que de uns 4 anos pra cá eu comecei a me envolver muito com coisas espirituais, com misticismo e coisas do tipo. Era uma vontade que eu tinha que eu não podia mais negar. Vinha do fundo da alma e eu decidi dar vazão aquilo na minha vida. No início eu comecei apenas lendo. Livros espíritas, budistas, taoistas. Sempre fui completamente apaixonado pelas filosofias orientais. O buda, fala sério, que cara bacana. Aquele foi demais. Mas enfim, apenas ler não me satisfazia, então comecei a praticar mediunidade. As vezes no centro espírita, mas principalmente por conta própria. Nada contra o espiritismo, mas é que eu nunca gostei de seguir o caminho dos outros, o que eu sempre gostei mesmo é de encontrar a minha própria maneira de fazer as coisas. Então comecei a fazer cursos sobre experiências fora do corpo, mais conhecidas como viagens astrais, comecei a praticar Reiki. E o principal, sempre muita meditação. Meditação pra mim sempre foi a base de tudo. Meditação era a única coisa que me trazia paz e serenidade, pois as outras coisas pra ser sincero me trouxeram por vezes muitos problemas. Não que isso tenha sido um problema, pois eu não embarquei nessa estrada achando que seria tudo um mar de rosas. Eu fui de coração aberto pra ver onde eu iria parar. Aceitando o que quer que fosse que estivesse no caminho. E no fim você acaba até fazendo amigos entre aqueles que inicialmente te causam problemas. Ah sim, a parte mais louca de tudo, comecei durante as meditações a escutar vozes. Depois comecei a sentir a presença de espíritos. E assim foi até que eu comecei a me comunicar mesmo com alguns deles. A coisa ainda não é tão clara como uma comunicação normal entre duas pessoas, é um pouco diferente, é uma coisa mais telepática. Mas é bem diferente de conversar sozinho. Eu converso muito sozinho e sei bem como é isso. Não tem nada a ver. Mas enfim, comecei a me interessar por umbanda, e logo comecei a me comunicar com uns preto-velhos, e pra ser sincero, eles são demais. Gostei muito dos que eu tive contato. Depois foi a vez do xamanismo, e aí a festa começou. Minha maneira de ser espiritual se juntou com as forças da natureza e comecei a conversar com a energia das árvores, dos jardins, da terra, dos elementais, e juro que tive contato inclusive com fadas. Fadas mesmo, não eram espíritos comuns não. Eram serem dionisíacos de uma beleza e um encanto magnífico. Elementais do ar, elementais da terra, baleias encantadas, animais que são espíritos guias, é uma coisa de louco. Mas é uma coisa maravilhosa. Assim comecei a entrar em contato não só com a natureza natureza, mas também com a natureza das coisas. Tratei com energia do Reiki o espírito da minha casa, o espírito do sótão que fica encima do meu quarto. Converso frequentemente com o espírito guardião do jardim aqui de casa e agora inclusive acabei de conhecer o espírito da universidade onde eu estudo. E é uma mulher. Enfim, claro que nem tudo foram flores. Também revi e revivi vidas passadas. Traumas passados. Dores muito muito fortes. Espíritos que queriam me matar, gente que tava puta da vida com algumas coisas. E assim eu fui. Meditando sempre, cada vez mais sereno, liberando as energias que ficaram pra trás e seguindo em frente. Vi que quando se libera a energia de uma experiência traumática, imediatamente todos os envolvidos naquilo se libertam também. Depois de tanto tempo mexendo com essas energias, agora dá até pra fisicamente ver a energia se dissipando e indo embora. Enfim, são muitas coisas. E eu continuo indo e aprendendo e desaprendendo. É uma viagem que eu amo fazer. Tudo. Amigos e inimigos. Tudo. É um mundo fantástico. Dá um gosto diferente a própria vida. Hoje, por causa disso tudo inclusive me sinto muito mais perto das pessoas também. Eu sinto elas muito melhor. Sinto o coração delas. E por isso quando estou com alguém não perco tempo pensando sobre a pessoa, apenas sinto ela, e assim eu passo a sentir a vida também. A vida passa a não ser apenas uma coisa que passa, mas é uma coisa que acontece. É uma coisa com magia. Negra ou branca, mas com magia. Enfim, não há um fim nessa história. Não sei o que vai acontecer daqui pra frente. Não faço nem ideia. Mas pra ser sincero, assim que é bom! Até a próxima. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Um canto a esperança

E tive que tirar uma folga dos meus escritos. Tive que parar de escrever por um tempo. Havia chegado o tempo de me livrar de algo que insistia em aparecer em tudo que eu escrevia. Em tudo que eu fazia também. Estava perdendo um pouco o jeito moleque de ser. Por estar virando adulto alguma força em mim começou a empurrar a criança lá pro fundo. E quando a criança se escondeu a esperança morreu. E com isso a dor começou a falar muito alto. Eu escrevia com dor. Queria me livrar dela e escrevia. Atacava os outros porque estava com medo. Eram muitas feridas, e tinha tanto medo de expô-las a mim mesmo que precisava atacar os outros. Pois não havia esperança. E dor sem esperança é insuportável. Mas foi então que tirei folga. Larguei o mundo, larguei os outros, parei tudo. Foi como ir para o Himalaia longe de tudo para meditar. Só que dessa vez o Himalaia era dentro de mim. E fui. Viajei. Lutei. Cai. Descansei. Me silenciei. Foi impressionante ver a quantidade de vozes que haviam dentro de mim se debatendo como loucas sem ter a menor ideia de que eram apenas "vozes dentro de mim". Cada uma se acreditava um universo inteiro em si mesma. Mas eram apenas "vozes dentro de mim" e nada além disso. Não que hoje eu esteja limpo de vozes. Ainda estou dentro do meu Himalia. Porém eu vejo com mais clareza. Vejo as vozes, vejo os medos, vejo o pavor, mas vejo que eles se ligam a mim mas não são eu. Se ligam pois ainda encontram eco em alguma das idéias que eu tenho. Mas inclusive as idéias, já comecei a ver que também não são minhas. Estão lá pois por algum motivo achei conveniente lá coloca-las. Mas nem elas fazem parte de mim. Mas o bonito mesmo dessa história toda é que cada dia que passa, cada meditação que acontece, cada pensamento que percebe que já é hora de ir embora, cada crença que entende que eu já não mais sou a sua casa, eu percebo mais claramente uma essência serena, amável e silenciosa surgindo do nada. Ela se confunde ainda no mar de vozes e personagens que ainda não se foram, mas eu a escuto as vezes. Eu sinto o seu gosto. A sua paz. É lá que eu quero chegar. Gostei do que vi e pra ser sincero não quero mais a vida sem isso. Algumas das vozes ainda me perseguem dizendo, você escolheu mal o caminho, você se dará mal, você será um fracassado na vida, e se continuar nesse caminho você morrerá infeliz e acabado. Mas quer saber? Prefiro morrer e fracassar buscando aquilo que meu coração me diz do que viver um sucesso baseado no medo e no abandono de mim mesmo. E foi então que me dei conta de uma coisa. A esperança estava de volta. E com isso percebi que agora as feridas já não machucam tanto. As dores já não doem tanto. A criança está mais uma vez renascendo. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Trecho de Vontade de potência de Nietzsche

  O homem bom, ou a hemiplegia da virtude - Para toda espécie de homem que permanece vigorosa e próxima a natureza, o amor e o ódio, a gratidão e a vingança, a bondade e a cólera, o fazer e o não fazer são inseparáveis.
    É-se bom com a condição de que se saiba ser mau; é-se mau porque de outra forma não se poderia ser bom. De onde, portanto, provém esse estado doentio, essa ideologia contra a natureza que nega esse caráter duplo, que ensina como virtude suprema possuir somente um semivalor? De onde provém essa hemiplegia da virtude, invenção do homem bom? Exige-se do homem que se castre daqueles instintos que lhe permitem fazer oposição, prejudicar, encolerizar-se, exigir vingança… A esta desnaturação corresponde a visão dualística de um ser puramente bom ou puramente mau (Deus, espírito, homem), resumindo, no primeiro, todas as forças intenções e condições positivas; no segundo, todas as negativas. Dessa forma, igual apreciação se julga “idealista”; não duvida que é em sua concepção do “bem” que ela fixou o escopo da suprema desejabilidade. Quando ela atinge seu ápice, imagina uma condição na qual todo mal será anulado e onde, na verdade, somente sobrarão os seres bons. Ela, portanto, não admite sequer como certo, nessa oposição, que o bem e o mal sejam condicionados um pelo outro; quer, ao contrário, que o mal desapareça e que o bem permaneça; um tem o direito de existir, o outro não deveria absolutamente existir… Em suma, quem é que deseja isso?
    Tem feito, em todos os tempos, e sobretudo nas épocas cristãs, o maior esforço para reduzir o homem a essa semiatividade que é o “bem”; também hoje, não faltam seres deformados e enfraquecidos pela igreja, para quem essa intenção é idêntica à “humanização” em geral, ou à “vontade de Deus”, ou ainda ”à salvação da alma”. Exigem, antes de tudo, que o homem não faça o mal, que, em nenhuma circunstância, prejudique ou tenha a intenção de prejudicar… Para isso surtir bom efeito, recomendam extirpar todas as possibilidades de inimizade, suprimir os instintos de ressentimento; recomendam a “paz da alma”, mal crônico.
    Esta tendência, que desenvolve um tipo particular de homem, parte de uma suposição absurda: considera o bem e o mal como realidades em contradição mútua (e não como valores complementares, o que corresponderia a realidade); ela aconselha tomar partido do bem, exige que o homem bom renuncie e resista ao mal até em suas mais profundas raízes – dessa forma, nega verdadeiramente a vida que homizia em todos os seus instintos a afirmação tão bem como a negação. 
    E, longe de compreender isso, sonha em retornar à unidade, à totalidade, à força da vida; ela imagina que é um estado de salvação quando finalmente a anarquia interior, as perturbações desses impulsos contrários conhecem seu término. Talvez não tenha existido, até o presente, ideologia mais perigosa, maior desatino inpsychologicis que essa vontade do bem: fizeram desenvolver o tipo mais repugnante, o homem que não é livre, o carola; ensinaram que é mister ser-se carola para se encontrar o verdadeiro caminho de Deus, que a vida do carola é a única que agrada a Deus…
    E ainda aí é que a vida tem razão, a vida que não sabe separar afirmação da negação: que adianta esforçar-se em declarar que a luta é má, em não querer prejudicar-se, em querer não fazer! Apesar de tudo se guerreia! Não se pode fazer de outra maneira! O homem bom que renunciou ao mal, infetado por essa hemiplegia do mal, como lhe parece desejável, não cessa absolutamente de combater, de ter inimigos, de dizer não, de não fazer. O cristão, por exemplo, detesta o pecado! E quanta coisa não chama ele de pecado? É precisamente por esta crença numa oposição moral entre o bem e o mal que o mundo está para ele cheio de coisas odiáveis a que cumpre combater eternamente. “O homem bom” vê-se como cercado pelo mal, aguça sua vista e acaba por descobrir traços do mal em tudo que faz; e é assim que termina, como é lógico, por considerar a natureza como má, o homem como corrompido, a bondade como um estado de graça (quer dizer, por humanamente impossível). Em resumo: nega a vida, concebe de modo que o bem, como valor superior, condena a vida…
    Dessa maneira, sua ideologia do bem e do mal deveria ser refutada por ele. Não se refuta, porém, uma doença… E é por isso que ele concebe uma outra vida!