domingo, 3 de julho de 2011

Pensamentos do além


Amor

E o que dizer do amor? Todos falam sobre ele, não? No fundo não é o amor a base fundamental de quase todas a ideologias? Mas porque é então que se vê tanto ódio por todas as partes? Será que falar de amor cria ódio? Ou será que se fala de amor justamente porque se tem ódio? Após fazer sexo não se pensa em sexo. Só pensa em sexo quem não o pratica constantemente. É a ausência que trás o pensamento. É a falta que trás a busca. E é por isso que se fala tanto de amor. Se busca sempre aquilo que não se tem. Falar de amor já é um sinal da falta de amor. Quem se torna amor, quem transborda amor, esse nem toca no assunto, pois quando se é não é preciso pensar que se é. Nesse caso não há pensamentos, há um ser, não há palavras, há um acontecer.

Decepção

E quem foi que te decepcionou? Faz mesmo sentido essa pergunta? Só tem desilusão quem antes se iludiu. Assim dizem os anjos já a algum tempo. Não são os outros que te decepcionam, é você que deu importância demais a eles. Inclusive quando você se decepciona é porque você se deu importância demais. Mas agora cabe também a pergunta, porque é que gostamos tanto de criar ilusões a respeito de nossa grandeza? E ainda outra ainda mais importante, será que a nossa ilusão de grandeza não nos impede de enxergar a nossa própria grandeza? Pois normalmente isso é o que eu vejo, seres grandiosos com uma imensa ilusão de que são grandes, o que os tornam pequeninos. Mas há uma razão para isso. Voltaremos agora a primeira pergunta, porque é que criamos ilusões? Para se criar um sonho na Terra não é necessário tê-lo sonhado durante o sono antes? E como trazer a potencialidade divina que temos escondida em nós se de fato primeiramente não acreditarmos nela? Existe um tipo de ilusão, um tipo de fé, que mesmo que esteja equivocada, ela serve para nos mover adiante, serve para que tragamos algo para cá que ainda não está aqui. A parte dessa ilusão que não é real trará necessariamente desilusão no futuro. Mas como disse, ela é necessária. O melhor seria se iludir de brincadeira, sonhar acordado. Que os meus sonhos me tragam o que der pra trazer, e se deles nada acontecer então que se sonhe outros sonhos e que se siga adiante. Pois o importante de verdade não é realizar os sonhos, mas sim seguir adiante. Qualquer coisa que nos leve para frente, para além do que nós somos, é boa, mesmo que com ela venha dor e sofrimento. Não importa, faz parte do crescimento. Não somos seres prontos ainda, se permita crescer. Se permita ir adiante, ir além.

Brincadeira

O que é a vida senão uma grande piada? Uma piada sim, mas uma piada que merece ser levada a sério. Pois quem não entende a piada não ri. É preciso compreender a vida se quisermos rir dela. Eu vos digo com toda seguridade, a vida foi feita para se rir dela. Essa é a única razão dela existir. Porém, como disse, temos que compreendê-la, senão perdemos a piada e ficamos com a cara séria. É exatamente isso que acontece em muitos países desenvolvidos. As pessoas estão tão preocupadas com seus empregos que acabam se esquecendo da vida. Não que o emprego não seja parte da vida. Mas ele é parte e a parte não é o todo. Sempre que a parte, qualquer parte, vira todo, então se perde a vida, e aí se acaba ficando sério. Pois quem perde a vida perde a piada.

Compaixão

E o que dizer da compaixão? Compaixão te faz retornar ao todo. Te faz ser um novamente com o próximo e logo com toda a existência. Compaixão não é ter pena, não é dizer sim a tudo que os outros fazem. Inclusive muitas vezes significa dizer não, compaixão é ser o outro. Não é entender e nem aceitar o outro, é ser o outro. E ser o outro não trás nenhuma obrigação e nenhuma ética obrigatória para com a outra pessoa. Seremos a outra pessoa e isso por si só já é a maior benção que pode acontecer aos dois. Nessa fusão toda a existência entra em comunhão com os dois. E nisso um silêncio surge, e o amor nasce justamente desse segundo de silêncio. Compaixão não é perdão. Entre o que perdoa e o perdoado existem duas pessoas, na compaixão só existe uma. Ou melhor, desaparecem as duas e o que existe é só a existência. A prática da compaixão é de todas a melhor meditação. Aos poucos ela derruba a ilusão da separação, que no fundo é a única ilusão que existe da qual surgem todas as outras. Compaixão é o começo do caminho para a serenidade, do caminho de volta para a existência.

A respeito de ajudar os outros


  • Antes de ajudar a alguém deve-se sempre se fazer 3 perguntas: -A pessoa realmente precisa da minha ajuda? - Ela quer receber a minha ajuda? - Ela está pronta para receber a minha ajuda? O não em qualquer uma dessas respostas torna a "ajuda" na verdade em apenas mais um problema. A "ajuda-a-qualquer-custo" não passa de invasão, tortura e tentativa de domínio.
  • Se você quer realmente ajudar o mundo, então inevitavelmente terá que passar pelas 3 perguntas. Caso contrário, para o bem da própria humanidade, a sua ajuda é absolutamente dispensável.
  • Normalmente se quer ajudar os outros, se quer ser útil, apenas para se sentir alguém importante. Porém, na maioria das vezes as pessoas realmente ajudariam as outras se elas finalmente aceitassem a sua insignificância. Se elas aceitassem simplesmente que ninguém precisa delas. Essa seria a maior ajuda possível.
  • Por não querer aceitar que ninguém necessita de nós, passamos a criar e a ver problemas em todos os lugares. Fazemos isso apenas por um desejo de sentirmo-nos necessários. É apenas medo da insignificância. Os "salvadores do mundo" são o caso máximo desse medo.
  • Como eu já havia dito anteriormente: Porque é que as pessoas continuam achando que o mundo precisa ser salvo? Quando é que elas se darão conta de que são elas que precisam de problemas no mundo para que assim possam se tornar "salvadores"?
  • As vezes há também de se fazer uma quarta pergunta. Tenho eu capacidade de ajudá-lo? Apenas boa intenção muitas vezes não basta. É necessário capacidade também, senão a ajuda será apenas mais um problema.
  • Esses pensamentos são verdades não apenas a nível pessoal, mas como também a qualquer outro nível, inclusive a nível de nações.

domingo, 19 de junho de 2011

Aforismos de um fim de semana em Weimar


  1. Para termos força para seguirmos adiante ao invés de cair em um niilismo enlouquecedor as vezes é mais importante termos inimigos do que amigos. Além disso, é por termos inimigos que precisamos também de amigos. Para combatê-los. Como ter "camaradas" senão por causa de um inimigo em comum? Em resumo, temos inúmeros motivos para sermos gratos aos nossos inimigos. Eles nos dão estímulo, entusiasmo e amigos. Jesus talvez tenha de alguma forma percebido isso, e foi por isso que disse: "Amai aos vossos inimigos". Pois no fundo eles não te fazem tanto mal assim.
  2. A arte serve para nos mostrar o além. Para nos levar a um lugar que está além da realidade comum. Porém, quando se está no limiar de entrar nesse novo estado, o apego a arte pode se transformar em um empecilho. É como encontrar a ponte a uma nova terra e ficar preso admirando apenas a ponte. Por mais que a ponte seja bela e necessária, o apego a ela fora da hora impedirá a pessoa de ver a beleza infinitamente maior que a espera na nova terra. É muito comum no comportamento humano se apegar ao que deveria ser temporário. É muito comum fazer do meio um fim em si mesmo.
  3. Tentamos nos tornar grandes e importantes inclusive através do sentimento de culpa. Muitas vezes nos culpamos imensamente por coisas simplesmente porque queremos ser importantes, pois queremos de alguma forma achar que tivemos alguma influência em tal acontecimento. Para isso usamos a culpa, pois do contrário, sem o sentimento de culpa nos tornamos insignificantes em relação ao que aconteceu. E o ser humano não teme a nada mais do que teme a sua própria insignificância. É melhor se sentir culpado do que insignificante.
  4. Tentar se fazer responsável por algo de bom que aconteceu, ou então culpado por algo ruim que ocorreu é absolutamente o mesmo ato. Vem da mesma energia, do mesmo desejo em evitar a própria insignificância.
  5. Não seriam também os sentimentos frutos de uma fisiologia da alma, assim como as sensações são frutos da fisiologia do corpo?
  6. Você deseja seguir um caminho espiritual? Então comece pelo corpo, pois ele é a base fundamental de toda espiritualidade.
  7. Você quer buscar a divindade perdida que está dentro de você? Então comece buscando a sua humanidade, pois é exatamente a sua humanidade que o torna divino.
  8. Tenho visto ateístas que são infinitamente mais espiritualizados do que os seguidores dos caminhos que levam ao espírito. E há uma razão muito simples para isso. Normalmente não se dá muita atenção para aquilo que já conquistamos anteriormente, para aquilo que já superamos anteriormente, apenas o usamos naturalmente em nossos atos, sem sequer que tenhamos que pensar sobre o assunto. Já é parte de nosso ser, o que é exatamente o caso de muitos ateístas em relação a sua espiritualidade. Além disso, normalmente se busca apenas aquilo que ainda não se tem, e exatamente essa é a situação de muitos dos buscadores do espírito, buscam aquilo que não tem. E quando criticam ateístas muitas vezes criticam quem estão muito a sua frente, com os quais poderiam ainda muito aprender.

sábado, 18 de junho de 2011

O recado dos Deuses


E foi então que ainda pensando sobre guerra e paz me veio um minuto de clarividência. Estava deitado na grama meditando em baixo de uma árvore e eis que o vento me trouxe a boa nova. Era um pouco da sabedoria celeste que os Deuses as vezes gostam de derramar sobre a Terra. E a mensagem era a seguinte: "Enquanto ainda houver guerra em seu coração, em sua alma, então lute. Lute, só que dessa vez lute pelos outros, e não mais contra os outros."
E assim o vento foi embora, deixando para trás apenas um silencioso rastro de paz e harmonia. O problema estava resolvido. A alma guerreira que anseia pela batalha, tem agora o caminho para fazê-lo criando harmonia e não mais destruindo e tornando feio o que vê pela frente. Que agora a guerra seja a boa guerra.

A mudança


O incrível é perceber que buda sempre esteve certo. Sobre tudo que ele disse ele estava certo. Tudo. Eu tentei ir contra ele de todas as maneiras possíveis. Tentei acreditar que ter amigos era importante, até que finalmente os meus amigos começaram a precisar de mim e a me aprisionarem em seus mundos de todas as maneiras possíveis. Era impossível seguir a minha vida enquanto estivesse preso a eles. E o mesmo serve para a família. E foi então que percebi também que os meus inimigos, aqueles que eu culpava por tornarem minha vida miserável de todas as formas possíveis e dos quais não conseguia me livrar de jeito nenhum por causa de um carma ou de alguma outra coisa dessa ordem, vi que eles foram os que mais me ajudaram a crescer e a me tornar maduro. Foram eles que me mostraram o que eu odiava em mim, o que eu precisava superar em mim, o que eu precisava ainda amar em mim. Esses malditos foram sempre um incetivo, mesmo que doloroso, para que eu pudesse seguir em frente. E a vida não é nada senão um eterno seguir em frente. As ideias de "objetivo da vida" não são nada além de desculpas para nos fazer caminhar. Para nos fazer mover juntamente com a vida. Pois a vida não é nada além de mudança e movimento. Vi então que meus amigos me faziam ficar parado e que meus inimigos me faziam mover, crescer, e porque não florescer? O que eu queria agora então, paz ou guerra? Já não sabia. Os pacifistas têm que seriamente se perguntar, está a humanidade realmente pronta para suportar a paz? Para não cair no niilismo enlouquecedor da falta de algo que os mova adiante? Essa é a pergunta que você tem que se fazer, você quer a paz mas você está mesmo pronto para suportá-la?
Foi quando minha mente simplesmente começou a não poder me dar mais resposta nenhuma. Não me sentia bem na guerra, estava cansado. E não me sentia bem na paz, estava parado e entediado. Tentava pensar para encontrar uma maldita solução, pois parecia que nada dava jeito. E sobre outras coisas estava no mesmo dilema. Ser livre para me relacionar com quem eu quiser a hora que eu quiser ou me arriscar novamente em uma monogamia? A mente só me deixava maluco, pois quando eu pensava nisso nenhuma das opções parecia me satisfazer. Largar tudo e virar um maldito hippie, ou seguir a vida universitária para conseguir um bom emprego? Eu pensava e pensava e nada funcionava. Não queria nenhum deles. Viver ou morrer? Que diferença isso fazia?
Pensar, pensar, pensar, não adiantava. Só piorava. Mas foi então que o milagre veio. Foi então que não houve outra opção a não ser parar de perguntar coisas para mente. Foi a única maneira que encontrei de sobreviver. A mente não conseguia mais me dar resposta nenhuma que me servisse para nada. E então veio a meditação. E com ela o milagre. Buda estava certo. Não adianta responder as perguntas, pois o problema não está na resposta, mas sim na existência da pergunta. É a existência dela que não te deixa em paz. E então elas começaram a se silenciar pouco a pouco. E continuam indo em embora. E com elas muito lixo vai embora. Tudo que me impedia de viver a vida plenamente tem ido embora. Amigos, inimigos, família, emprego, estudos, sonhos, passado, futuro, tudo tem desaparecido. E com isso uma qualidade nova tem surgido. Um silêncio sereno. Uma paz que é infinitamente mais forte e mais bela do que qualquer uma de minhas loucuras. Agora ambas as respostas me satisfazem, qualquer resposta me satisfaz. Posso viver qualquer uma delas, essa já não é mais a questão, isso já não mais interessa. É a vida que vem surgindo. Sou eu que estou surgindo. Não mais alguém com resposta nenhuma a respeito de nada. Alguém limpo. Uma criança novamente. Buda esteve sempre certo.

domingo, 24 de abril de 2011

Os versos de ouro - Pitágoras


Honra, em primeiro lugar, e venera os deuses imortais,
a cada um de acordo com sua classe.
Respeita logo o juramento, e reverencia os heróis ilustres,
e também aos gênios subterrâneos:
cumprirás assim o que as leis mandam.
Honra logo a teus pais e a teus parentes de sangue.
E dos demais, faça-te amigo do que se sobressai em virtude.

Cede às palavras gentis e não te ponhas aos atos proveitosos.
Não guardes rancor ao amigo por uma falta leve.

Estas coisas, faça-as na medida de tuas forças,
pois o possível se encontra junto ao necessário.

Compenetra-te em cumprir estos preceitos,
mas atine-se a dominar
antes de tudo as necessidades de teu estômago e teu sono,
depois arranque-os de teus apetites e de tua ira.

Não cometas nunca uma ação vergonhosa,
Nem com ninguém, nem a sós

Acima de tudo, respeita-te a ti mesmo.

Seguidamente exercita-te em praticar a justiça, em palavras e em obras,
Aprende a não comportar-te sem razão jamais.

Sabendo que morrer é a lei fatal para todos,
que as riquezas, umas vezes te cabe ganhá-las e outras, perde-las.

Dos sofrimentos que cabem aos mortais por divino desígnio,
a parte que a ti corresponde, suporta-a sem indignação;
mas é legítimo que busques remédio na medida de tuas forças;
porque não são tantas as desgraças que caem sobre os homens bons.

Muitas são as vozes, umas indignas, outras nobres, que vem a ferir o ouvido:

Que não te perturbem, nem tampouco te voltes para ouvi-las.

Quando ouvires uma mentira, suporta com calma.

Mas o que agora vou te dizer
é preciso que cumpras sempre:
Que ninguém, por seu ditos ou por seus atos
te comova para que faças ou digas nada que não seja o melhor para ti.

Reflete antes de obrar para não cometer tolices:
Obrar e falar sem discernimento é de pobres gentes.
Tu, por tua vez, farás sempre o que não possa danar-te.


Não entres em assuntos que ignoras,
mas aprende o que é necessário:
tal é a norma de uma vida agradável.

Tampouco descuides de tua saúde:

Tem moderação no comer e no beber,
e no exercício do corpo.
Por moderação entendo o que não te faça dano.
Acostuma-te a uma vida saudável, sem frouxidão,

E guarda-te do que possa atrair a inveja.

Não sejas dissipado em teus gastos

Como fazem os que ignoram o que é honradez,
mas não por eles deixes de ser generoso:
nada há melhor que o equilíbrio em todas as coisas

Faz pois o que não te prejudica, e reflete antes de atuar.
E não deixes que o doce sonho se apodere de teus languidos olhos
sem antes haver repassado o que fizeste durante o dia:
"No que falei? O que fiz? Que dever deixei de cumprir?"
Começa do principio e percorre-o todo,
e reprova-te os erros e alegra-te com os acertos.

Isto é o que deves fazer.
Estas coisas que há de empenhar-te em praticar,
Estas coisas há que amar.
Por elas ingressarás na divina senda da perfeição.
Por quem transmitiu a nosso entendimento a Tetratkis (1)

fonte da perene natureza.

Adiante, pois! Ponha-te ao trabalho,
não sem antes rogar aos deuses para que te conduzam à perfeição.
Se observares estas coisas
conhecerás a ordem que reina entre os deuses imortais e os homens mortais,
em que se separam as coisas e em que se unem.

E saberás. Como é justo, que a natureza é uma e a mesma em todas as partes,
para que não esperar o que não há que esperar,
nem nada fique oculto a teus olhos.


Conhecerás os homens,
vítimas dos males que eles mesmos se impõem,
cegos aos bens que lhes rodeiam, que não ouvem nem veem:
são poucos os que sabem livrar-se da desgraça.
Tal é o destino que estorva o espírito dos mortais,
como contas infantis rodam de um lado a outro,
oprimidos por males inumeráveis:
porque sem adverti-lo os castiga a Discórdia,
sua natural e triste companheira,
a que não há que provocar, sem ceder-lhe o passo e fugir dela.

Oh pai Zeus! De quantos males não livrarias os homens
se tão somente os fizesse ver a que demônio obedecem!

Mas para ti, tem confiança,
porque de uma divina raça estão feitos os seres humanos,
e há também a sagrada natureza que lhes mostra e lhes descobre todas as coisas.
De tudo o qual, se tomas o que te pertence,
observarás meus mandamentos,
que serão teu remédio e livrarão tua alma de tais males.

Abstenha-te dos alimentos como dissemos,
seja para as purificações, seja para a liberação da alma,
julga e reflete de todas as coisas e de cada uma,
alçando alto tua mente, que é o melhor de teus guias.

Se descuidas teu corpo para voar até as livres orbes do éter,
serás um deus imortal, incorruptível,
já não sujeito à morte.

.

(1) Tetraktys. Número sagrado e fundamental dos pitagóricos pelo qual juravam fidelidade. Simboliza a unidade origem e principio, a dualidade das oposicoes e as complementaridades e o triunfo da trindade, que finalmente se desprende no universo do quatro. 1 + 2 + 3 + 4 = 10, a unidade expandida na manifestação, = 1 + 0 = 1, o retorno à unidade de origem.

E então veio a primavera ...


E então veio a primavera. Finalmente o domingo de páscoa. O dia do renascimento. Mas agora não apenas o renascer de Jesus Cristo. Ele fez o que pôde. Ele defendeu os fracos e os oprimidos. E certamente há de ser muito forte para o fazê-lo. Porém não já não era o suficiente. Havia também um dia alguém de vir para defender os fortes e opressores. E eis que Nietzsche veio ao mundo. Não havia outro jeito, alguém precisava agora abençoar o mal para poder em fim criar a paz, a redenção, para criar o ser humano que será um ser total. Um humano não negador da vida, mas um humano onde o bem e o mal estejam juntos de mão dadas se amando incondicionalmente. Será o fim da guerra contra si mesmo. Não será também esse o final da guerra contra os outros? Almas negras e brancas finalmente dançando juntas a dança do novo amanhecer. Apenas um! Agora seremos apenas um! Eis o grito que o novo tempo traz para finalmente criar serenidade.
Jesus e Nietzsche foram dois opostos. Foram duas metades. Foram dois irmãos. Jesus mostrou a beleza que havia em uma metade da vida, e Nietzsche mostrou a beleza que havia na metade oposta. Mas agora é um novo renascer. Um renascer sem metades. Um renascer sem separação. Agora é a hora de ver beleza em todas as partes. O tempo chegou trazendo novos ares. Jesus sem Nietzsche não tem leveza suficiente para ver bondade na opressão, e Nietzsche sem Jesus não tem força suficiente para ver beleza e dança naquilo que é simples. Consolo sem esclarecimento apenas perpetua o sofrimento, e esclarecimento sem consolo não traz nenhum tipo de paz. Jesus sem Nietzsche e Nietzsche sem Jesus não podem trazer a nova música do amanhã. A canção da nova primavera. A explosão do novo renascer.
Foi-se o tempo do belo Jesus Cristo, e depois foi-se também a época do grande Friedrich Nietzsche. O mundo precisou de ambos. Mas agora é uma nova época. O grande dia onde ambos estarão juntos abraçados dançando e espalhando a nova fragrância do ser humano total. O fim da guerra. Chegou o tempo da reconciliação. Chegou o tempo do novo renascer. Eu já escuto o seu cantar nas flores que estão brotando. Já não há como deter a nova primavera.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quando o louco começa a falar ...


Era mais um dia comum em que eu caminhava aleatoriamente pelas ruas de um subúrbio de Londres. As mesmas caminhadas na tentativa de esvaziar a mente. De apagar o barulho que insistia em não fazer paz com o meu silêncio. Já não queria mais receber mensagens me esclarecendo o significado da vida, queria apenas que as perguntas não estivessem mais lá. Não estava mais em busca da verdade. Ela nunca me adiantou de nada. Nenhuma verdade jamais trouxe nenhum tipo de paz ao meu coração. Queria ser agora o mais burro. O que menos entende a vida. Talvez assim eu comece finalmente a vivê-la. Queria deixar ao futuro apenas a inocência do vir-a-ser. Que ele me traga o que ele quiser. Essa escolha não é minha. E que escolha algum dia já foi minha? As minhas explicações para os meus próprios atos se mostraram sempre falsas. Fui eu ou foi a vida que me trouxe até aqui? E porque eu insisto em separar "eu" e "vida"? Quem criou essa ridícula separação? Nenhuma dessas perguntas faz nenhum sentido. O quê? Finalmente o sentido está desaparecendo? E por que buscar sentido algum? Razão para que? Não quero ter mais nenhum pingo de razão em nenhum dos meus atos. "Causa e efeito", que mentira mais absurda. Quem é causa e quem é efeito? Será que não é a causa que só existe por causa do efeito? E quem foi louco o suficiente para separar esses dois atos iguais? Quem foi o louco que inventou a separação? Quem separou o assassino do assassinado? Quem separou o amante do amado? Como separar o que é igual? Como separar o que pertence ao todo? O todo não vê nenhuma parte. Não há partes no todo. Não há separações. Não há eu e a vida, o que há é um eu-vida. Não há choro e risos. Quem não chora também não consegue rir. Pois é tudo a mesma coisa. Eu e você. Porque dois nomes? O indivíduo e a sociedade. Não, seus loucos! Não há partes. Não somos partes! Não temos partes. Como pode alguém dizer: "Eu não gosto dessa parte em mim."? Você não tem partes. Você é um todo. E continuam dizendo: "Tenho que melhorar esse meu lado". Não, não há lados. Você é um todo. O líder só existe porque existem seguidores, assim como os seguidores só existem porque existe um líder. Não veem vocês que não existe efeito sem causa assim como não há causa sem efeito? Quem veio antes? Não há antes. Eles vieram juntos. Eles estão juntos. Um cria o outro. A separação cria os dois ao mesmo tempo. Deus ou a humanidade? Que pergunta mais besta. Um não pode existir sem o outro. A humanidade é também causa de Deus. Foi a separação que criou um Deus. O Deus é a nossa vontade de voltar ao todo. No todo não há partes. Não há eu, não há vida, não há Deus, não há nada. E assim há tudo. Tudo! Eu, você, o louco, o buda, o guerrilheiro, o racista, o cientista, o mentiroso, o materialista, o espiritualista, o poeta, o animal, o vegetal, o sábio, o poderoso, o zé-ninguém, o doente, o criminoso, o santo, Jesus, o diabo. Nós somos o todo. Nenhum desses é parte. Somos o todo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

E finalmente ... amor


-Então me diga nobre cavalheiro. Do que falaremos hoje?
-Você ainda não percebeu? Não está sentindo esse aroma que está aqui no ar agora?
-Eu percebi que havia algo diferente. Mas tive medo de acreditar que havia chegado a hora.
-Porém a hora chegou meu caro amigo. Hoje finalmente falaremos sobre o amor.
-Mas porque exatamente sobre o amor?
-Porque eu já cansei de falar sobre todo o resto.
-Não é possível. Logo você que gosta tanto de seus discursos sobre os humanos, revoluções, o universo, sobre a vida.
-Desculpe se o meu atual estado te perturba meu caro amigo. Acontece que chegou a hora. Será que você não consegue entender isso? Tudo que veio antes foi uma preparação. Foi um treino.
-Como assim?
-Revoluções? Revolucionar o quê? Como pode alguém depois de uma bela noite de amor pensar em querer mudar alguma coisa? E que tipo de revolução poderia ser mais bela do que uma linda noite de amor?
-Há algo muito diferente em você hoje.
-Sim, eu já te disse que chegou a hora. Hoje eu falarei sobre o amor.
-Eu já tive medo de suas palavras antes, mas nunca como hoje.
-Não há problema meu caro amigo. As pessoas temem o amor. Eu sempre temi o amor. Por isso que eu precisava sempre estar falando sobre guerras e sobre outras insanidades. Eu poderia falar sobre essas coisas durante a vida inteira. Durante muitas vidas inclusive se esse fosse o caso. Mas o que eu posso fazer hoje? Finalmente chegou a hora.
-E como você sabe que chegou a hora?
-Será que você não consegue ver?
-Ver o que?
-Que ela esteve aqui.
-Ela quem?
-Ela!
-Mas não poderia ter sido outra?
-Caro amigo, a vida não conhece "poderias". A vida simplesmente é o que ela é. E foi ela quem esteve aqui, e não outra.
-Mas o que você viu nela?
-Você ainda não entendeu. O que eu vi não foi nela, foi ela.
-Mas o que ela fez?
-Não foi o que ela fez, foi o que ela é.
-Então me diga, quem ela é?
-E como poderia eu responder a uma pergunta dessas? Como colocar em palavras o que nem mesmo os sentimentos mais transcendentes de meu coração conseguem entender direito?
-Mas porquê você a ama?
-Meu querido amigo, o amor não vem do conhecimento, não vem da compreensão. A mente nunca será capaz de amar. O amor vem de outro lugar. Ele vem do desconhecido. Ele vem da aventura do viver sem saber. Eu não faço ideia do porque a amo. Apenas sei que a amo.
-Você está louco! Por acaso você já parou para pensar no que você está falando?
-E como pensar sobre o que eu estou falando? O amor vem da vida. Ele vem do todo. Ele é muito maior do que o que eu posso compreender. Eu sou apenas uma parte. E como pode a parte querer entender o todo? O todo é muito maior. O todo é o todo.
-Não entendo nada do que você está falando.
-Não há problema algum. Eu tampouco o entendo.
-Mas então porque você fala?
-Por acaso já não te falei que hoje finalmente chegou a hora? A hora de falar sobre o amor? E como poderia eu falar sobre o amor, experimentar o que é o amor, se ainda houvesse dentro de mim algum desejo em compreender alguma coisa?
-Devo confessar que há beleza nisso que você diz.
-Eis a vida daquele que se liberta do desejo da verdade, do desejo do saber, do desejo de estar certo. Quando desaparece a busca pela verdade, pela compreensão do que é a vida, então a única coisa que resta é a própria vida. E o que é a vida senão apenas amor? E onde mais poderia haver algum tipo de beleza senão no amor?
-Não te entendo, mas gosto do que você me diz.
-Esse é o caminho meu caro amigo.
-Há amor nas suas palavras.
-Não posso evitar. Pois como eu te disse. Hoje finalmente chegou o dia. O dia de falar sobre o amor.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O menino que escrevia


Certa vez houve um menino que gostava de escrever. No começo ele não entendia direito porque fazia aquilo. Mas sim ele gostava. Aquilo o fazia muito bem. Escrever o levava para algum lugar onde ele se sentia bem. Um lugar que no início parecia ser fora da realidade. E talvez até fosse, mas era exatamente o que ele precisava. Para entender e conviver com a realidade é necessário muitas vezes sair um pouco dela. É necessário olhar de longe, de um lugar onde o peso de existir não seja um problema.
Alguns falavam que ele escrevia simplesmente por desabafo. Mas o que acontece com quem guarda suas angustias para si? Ele precisava se livrar de muita coisa. Haviam muitas coisas nele que no fundo não eram dele, estavam lá apenas emprestado. E tudo que se pega emprestado uma hora a gente acaba tendo que devolver.
E ele crescia e a necessidade de escrever ia cada vez aumentando mais e mais. A vida havia começado a parecer coisa de gente grande, e obviamente isso o assustava imensamente. Havia algo nele que sabia que esse tipo de vida que as pessoas levavam não era uma vida para ele. Ele precisava de algo mais. Ele precisava de algo além. A vida tinha que ser mais. E foi então que o lápis e o papel ficaram ainda mais e mais importantes. Quem sabe através daqueles incontáveis textos a vida não teria uma maneira de em algum lugar mandar alguma mensagem escondida?
E a escrita continuou e continuou. Gritos de ódio, palavras de amor, choros solitários, gargalhadas de alegria. Não havia outro jeito. A vida trazia todas essas coisas para ele. E o que ele poderia fazer contra a vida? Com o seu lápis na mão ele era capaz de lutar contra tudo e contra todos. Inclusive contra o próprio Deus. Mas nunca contra a vida. Isso ele no fundo nunca negou. Por mais que ele quisesse fugir por algum tempo, aquelas fugas eram no fundo apenas para recuperar o fôlego.
E foi então que algumas pessoas começaram a perceber que o que ele escrevia na verdade era até interessante. Era ainda um menino tentando se encontrar, mas ali alguns já começaram a ver que brotava uma semente de algo diferente. De algo que nem mesmo eles entendiam muito bem o que era. Algo que inclusive muitos temiam por não saber qual seria o fim daquilo tudo. Mas ele não se preocupava muito com essas coisas de fim, pois mesmo naquela época ele já sabia que a vida nunca coloca fim a nada, ela sempre continua. Ela muda, assume outra forma, outro gosto, outra cor, mas sempre continua de algum jeito.
Os seus textos começaram então a ficar mais profundos, mais gostosos, mais ardentes, mais poéticos algumas vezes, mais insanos, mais perigosos. A medida em que ele avançava na vida, as suas verdades ficam cada vez mais intensas, mais fortes. E foi então que ele percebeu que havia algo nele que ele poderia compartilhar com o mundo. Havia algo nele louco para ser compartilhado com o mundo. A vida queria gritar através dele. E mesmo em seus momentos de insanidade a vida mesmo assim ainda queria gritar através dele, pois quem disse que a vida não possui lindas loucuras dignas de serem compartilhadas?
Agora ele já não podia mais parar com aquilo. Era mais forte do que ele. Agora o escrever era parte de sua alma. Parte do seu próprio desejo de viver. Essa era sua arte. Essa era sua inspiração. Agora cada vez que escrevia se sentia mais perto da existência. Mais perto de si mesmo. E estranhamente até mesmo mais perto das pessoas. Mais perto da humanidade. Escrever era ao mesmo tempo um refúgio da realidade nos momentos difíceis e a maneira mais fácil de retornar a ela em momentos de calmaria. Sem a escrita a vida não tinha tanta cor. Escrever alimentava a alma. E quem disse que só o corpo necessita de alimento?
Uns diziam que ele queria agora criar uma nova crença. Trazer uma ideia nova. Ter os seus próprios seguidores. Mas ele nunca ligou muito para isso. No fundo ele nunca escreveu para ninguém além dele mesmo. Ele nunca escreveu para mudar o mundo. Talvez tenha o feito no início, mas que menino quando jovem não sonha em mudar o mundo? Ele se divertia escrevendo, ele ria escrevendo, ele chorava escrevendo. O seu escrever não tinha um propósito fixo, cada dia era por uma razão diferente. E na maioria das vezes até mesmo não havia razão nenhuma. Escrever era viver. Era esquecer da vida, era lembrar da vida. Era entender a vida para descobrir depois que a vida não podia ser entendida. E ele escrevia, escrevia e escrevia ... Para onde será que ele ia? Para onde será que o escrever o estava levando? Ele ainda não sabia, e nem mesmo se importava tanto assim, ele continuou simplesmente fazendo o que ele sempre fazia, ele escrevia, escrevia e escrevia ...

terça-feira, 15 de março de 2011

O dia da grande festa

Era uma noite solitária no alto de uma montanha. Uma brisa leve e suave soprava no meu rosto. Os gritos que normalmente vinham do mundo lá em baixo estavam estranhamente quietos. Havia uma paz no ar que não costumava estar ali. A tranquilidade do alto da montanha costumava vir sempre de cima, mas naquela dia ela estava vindo também de baixo. O que era aquilo? Seria finalmente o grande dia? O grande meio-dia? Eu não esperava por aquilo. Nunca havia experimentado nada igual. Não daquele jeito. Onde foi parar a guerra que até ontem insistia em permanecer na minha alma? Será que o topo da montanha estava agora acessível às pessoas do mundo? Será que agora finalmente era hora de receber os meus convidados, o meu povo? Nunca achei que fosse realmente possível.
Primeiro veio o Rei me visitar, e com ele veio o seu escravo. Mas havia algo de diferente nos dois. O escravo havia entendido o peso que era para o Rei ter que governar a alguém. Havia percebido que não apenas ele era vítima do Rei, mas como também o Rei era vítima dele. Com isso o Rei se libertou do governar, e o escravo se libertou do ser governado. Ambos estavam livres para subir a montanha.
Logo após veio o padre, e com ele vinha o ateu. O padre sorria e festejava, pois havia finalmente se libertado da crença em um Deus. Estava agora livre para mergulhar na vida e experimentar o que quer que ela trouxesse sem nenhuma ideia prévia de como que a vida deveria ser. Sentia pela primeira vez como uma criança o gosto do que significava a palavra viver. Estranhamente quando o padre se libertou de Deus então o ateu pôde pela primeira vez experimentar a divindade escondida nos ventos que a vida trazia. Quando o padre desapareceu então o ateu festejou, pois agora ele podia em paz se encontrar com o sopro do divino que há muito tempo batia à sua porta. Os dois se abraçavam e cantavam em um gozo quase infinito por tamanho prazer em experimentar tal liberdade. Estavam prontos para subir até o topo da minha montanha.
E as pessoas não paravam de subir. Elas vinham de todos os cantos. Uma enorme festa estava tomando forma. Inclusive as estrelas no céu haviam percebido e naquela noite brilhavam com uma intensidade nunca vista antes. Era como se a lua chorasse por jamais ter visto tão bela cena. A própria noite não parecia mais noite. Não se sabia se era noite ou se era dia. Ambos pareciam iguais naquele momento.
E nisso veio o guerreiro e o pacifista. O guerreiro havia percebido que a suas guerras no fundo eram apenas para descarregar a guerra que ele carregava dentro de si mesmo, e o pacifista percebeu que exigir paz de um guerreiro era uma violência tão grande quanto a própria guerra.
Atrás deles vinham o fascista e o anarquista. O fascista agora entendia que seu ódio à liberdade individual, que o seu ódio ao anarquista, nada mais era do que ódio que tinha por si mesmo por não se permitir gozar a vida da maneira que sua alma pedia, e o anarquista entendeu que o seu ódio ao fascista nada mais era do que o ódio que tinha pelo seu fascista interior que insistia em controlar aos outros e a si mesmo através de uma moral da liberdade.
E assim veio o belo e o feio, o bom e o mal, o forte e o fraco, o preguiçoso e o trabalhador, o inteligente e o burro, o pobre e o rico, Deus e o Diabo. Todos vinham abraçados por terem percebido que o combate que travavam entre si nunca havia de fato sido entre si, mas sempre contra si mesmos. O que não aceitavam no outro, no fundo era algo que não aceitavam em si mesmos. Quando um se libertou então o seu oposto, o seu irmão, o seu igual, também se libertou, se tornaram um só, e com isso estavam agora leves o suficiente para subir ao topo da montanha.
Foi então que raios de sol começaram a surgir entre as estrelas. A noite estava já ensolarada. O ar que nos envolvia estava diferente. E foi nesse momento que levei a maior surpresa de minha vida. A montanha na qual vivia já não me parecia mais tão alta, e o mundo lá em baixo na realidade não estava mais "lá embaixo". Foi então que eu também percebi algo. A montanha nunca havia de fato existido. Nós sempre havíamos sido iguais. E com isso agora era eu que estava leve o bastante para me juntar as pessoas do mundo e finalmente celebrar com eles a nossa festa. A grande festa.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Discurso sobre a crueldade e algo mais


Qual é o problema em se ser cruel? Não vejo resposta nenhuma que seja digna de uma alma elevada. Esperar dos outros e de si mesmo apenas bondade e caridade não é também uma forma de crueldade? uma forma de ser contrário a vida? de ser contrário a Deus?
O Diabo não existe separadamente de Deus. Eles são duas partes de uma única coisa. A guerra entre céu e inferno só existirá enquanto existir a separação entre Deus e o Diabo. O dia em que eles se tornarem um só, o dia em que eles deixarem ambos de ser bebês chorões e acordarem para a vida, para a realidade de que eles são irmãos muito próximos, quase gêmeos, aí então toda essa maluquice de corpo e espírito desaparecerá.
Espiritualidade é o nome que se dá para a covardia daquele que quer fugir da vida. Espiritualidade nada mais é do que um profundo desejo de se cometer suicídio. A vida não impõe separação nenhuma. Quem quiser ser digno da vida terá que se encontrar com ela cara a cara. E não fugir dela.
Se a vida te traz violência e crueldade é para que você veja o que você tem dentro de si e que você esconde de si mesmo no fundo de sua alma. As maiores atrocidades já cometidas até hoje não foram sempre cometidas em nome do amor ao próximo? Em nome de um Deus de amor infinito? Em realidade, pode existir violência maior do que achar que o próximo precisa do seu amor? Ou melhor dizendo, pode existir violência maior do que achar que isso que você chama de amor seja digno de alguma coisa?
No fundo, o que é isso que você chama de amor senão medo, insegurança e covardia? Medo de ser odiado. Insegurança por temer descobrir que você não vale nada para ninguém, já que você não vale nada para si mesmo. Covardia de assumir ser quem você realmente é.
Geralmente se esconde tudo aquilo que a moral nega, e esse é o maior dos crimes contra a vida. Pois quase sempre, aquilo que rejeitamos em nós mesmos é justamente o que nos tornaria almas mais nobres, seres mais dignos da vida. O que você menos aceita em si mesmo, normalmente é o que de melhor há em você.

Trechos de Crepúsculo dos Ídolos de Friedrich Nietzsche


Erro da vontade livre.
- Hoje já não temos mais nenhuma compaixão pelo conceito de "vontade livre": sabemos muito bem o que ele é - o mais suspeito artifício dos teólogos que existe; um artifício que tem por objetivo fazer com que a humanidade se torne "responsável" à moda dos teólogos, isto é, que visa fazer com que a humanidade seja dependente deles... Eu ofereço aqui apenas a psicologia de toda e qualquer atribuição de responsabilidade. - Onde quer que as responsabilidades sejam procuradas, aí costuma estar em ação o instinto de querer punir e julgar. Despiu-se o vir-a-ser de sua inocência, quando se reconduziram os diversos modos de ser à vontade, às intenções, aos atos de responsabilidade. A doutrina da vontade é inventada essencialmente em função das punições, isto é, em função do querer-estabelecer-a-culpa. Toda a psicologia antiga, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes no topo das comunidades antigas, queriam criar para si um direito de infligir penas - ou queriam ao menos criar um direito para que Deus o fizesse... Os homens foram pensados como "livres", para que pudessem ser julgados e punidos - para que pudessem ser culpados. Conseqüentemente, toda ação precisaria ser considerada como desejada, a origem de toda ação como estando situada na consciência (- com o que a mais fundamental fabricação de moedas falsas transformou-se, no interior do psicologicismo, em princípio da própria psicologia...). Hoje, quando adentramos o movimento inverso, quando nós imoralistas buscamos novamente com toda força sobretudo retirar do mundo o conceito de culpa e o conceito de punição, purificando destes conceitos a psicologia, a história, a natureza, as instituições e as sanções comunitárias, não há em nossos olhos nenhum antagonismo mais radical do que o em relação aos teólogos que continuam a infectar a inocência do vir-a-ser com as noções de “punição” e "culpa", a partir do conceito de "ordem moral do mundo". O cristianismo é uma metafísica de carrasco...


Qual pode ser nossa única doutrina?
- Que ninguém dá ao homem suas propriedades; nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele mesmo (- o contra-senso da representação, aqui por fim recusada, é ensinado por Kant, e talvez mesmo já por Platão, como "liberdade inteligível"). Ninguém é responsável em geral por ele existir, por ele ser constituído de tal ou tal modo, por ele se encontrar sob estas circunstâncias, nesta ambiência. A fatalidade de sua existência não pode ser separada da fatalidade de tudo o que foi e de tudo o que será. O homem não é a conseqüência de uma intenção própria, de uma vontade, de uma finalidade. Com ele não é feita a tentativa de alcançar um "ideal de homem" ou um "ideal de felicidade" ou um "ideal de moralidade". - É absurdo querer fazer rolar sua existência em direção a uma finalidade qualquer. Nós inventamos o conceito de "finalidade": na realidade falta a finalidade... É-se necessariamente, se é um pedaço de fatalidade, se pertence ao todo, se está no todo. Não há nada que pudesse julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não há nada fora do todo! Que ninguém mais seja responsável, que o modo de ser não possa ser reconduzido a uma causa prima, que o mundo não seja uma unidade nem enquanto mundo sensível, nem enquanto "espírito": só isso é a grande libertação. - Com isso a inocência do vir-a-ser é restabelecida... O conceito de "Deus" foi até aqui a maior objeção contra a existência... Nós negamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente com isso redimimos o mundo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Expectativas


O que as pessoas esperam de você é problema delas e não seu. Se elas sofrem por isso, é culpa apenas delas e não sua. Por acaso foi você que pediu que eles ficassem colocando expectativas nas suas costas? Se o outro não age de acordo com o que você espera dele e você fica decepcionado, então saiba que a culpa da decepção é apenas sua. Você que criou fantasias de como os outros deveriam ser. São as suas ideias de como que o outro, de como que a vida tem que ser que tornam a sua vida essa miséria. E não só isso. Aquele que faz o que os outros esperam dele achando que estão os ajudando ao fazer isso não passa de um bobalhão que apenas ajuda a criar mais miséria. Se você prostitui a sua própria vontade, a sua própria espontaneidade, a sua própria alma, pelo ''outro'', você está apenas ajudando ele a permanecer o mesmo bebê imaturo que fica criando expectativas a respeito de tudo para depois poder se fazer de vítima do universo inteiro. Ao ajudar o outro a ver a vida que ele espera, você o impede de ver a vida como ela é. Você rouba dele a única coisa que ele veio fazer aqui, que é conhecer a vida. Enquanto essa ideia absurda de como a vida deveria ser estiver viva, a vida como ela é jamais será percebida, jamais será vivida. E não é só pelo outro. Quando você se vende por ele, você se destrói. Nesse ato de ''ajudar o outro'' você perde a vida que está aqui agora esperando que você desperte o seu potencial máximo. A vida não faz nada além de tentar te mostrar quem você é. Mas você prefere ser o herói. Você quer salvar o outro. Mas você mesmo ainda não se encontrou. E jamais se encontrará enquanto estiver sendo alguém ''pelo outro''. Seja você mesmo, seja o que você é. É o único jeito. Encontre quem você é e pare com esse teatro de ser o salvador do mundo, pois essa mentira só te leva cada vez mais para longe de si mesmo. Torne-te quem você é e depois disso você verá que sem nenhum esforço, só o fato de ser si mesmo será suficiente para ajudar quem estiver desfrutando o tempo com você. Seja você mesmo, que assim você finalmente encontrará sem nenhum esforço todo aquele altruísmo que você sempre procurou mas que nunca havia encontrado realmente. Nesse instante você verá como que anteriormente o que você achava que era amor nunca havia passado de brincadeira de criança. O amor agora passará a ter um significado muito diferente. Agora você ajudará os outros, mas não porque você tem que fazer isso, nem mesmo porque você quer fazer isso, não é uma escolha, não é um ato, isso passa a ser uma pura e simples consequência de sua própria natureza.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Torna-te quem tu és


Só aquele que encontra a si mesmo é realmente digno da vida. Vida que eu digo é a vida verdadeira, e não essa mentira que as pessoas experimentam por aí. Mas porque eu acho isso? Só aquele que vive o seu potêncial máximo é que se desgarra da culpa, do medo, da insegurança, da covardia. Viver o potêncial máximo é algo atemporal. Não é questão de uma vida inteira. Isso não interessa. O que interessa é que você encontre a si mesmo. Esse é o ponto. Para isso a vida trabalha. No momento em que se atinge essa experiência então o resto vem por si só. O que quer que seja. Pare de mentir para si mesmo! Se você não sabe nem mesmo quem você é, então como é que você quer saber qual é o seu propósito aqui?
Se você sabe quem você é então a pergunta sobre o que se deve fazer simplesmente não aparece. Você simplesmente sabe. Não é uma simples conclusão lógica, mas você sabe. O dia em que você se conhecer então todos os seus Deuses morrerão. Inclusive os Deuses disfarçados em forma de espíritos de luz e de serenões. Você não mais precisará de guias, sejam eles cegos ou lúcidos. Você simplesmente estará em pé sobre os seus próprios pés.
A questão é que só aquele que é sincero consigo mesmo, aquele que se permite qualquer coisa nos seus atos, que é verdadeiramente capaz de se avaliar e de saber realmente quem é. Aquele que se esconde atrás de uma máscara, de uma moral, de uma ética, seja ela cósmica ou terrena, de um bem e de um mal, de um certo e de um errado, esse jamais será capaz de encontrar esse estado máximo de auto-conhecimento. Aquele que se permite ser a si mesmo, esse é capaz de se encontrar. Somente quem se permite chorar, quem se permite ser cruel, somente esse pode se olhar como realmente é. Veja que estou dizendo aquele que se permite ser cruel, e não aquele que é cruel. Há uma grande diferença entre ambos, eles são inclusive opostos, pois aquele que se permite crueldades geralmente não necessita comete-las. Já aqueles que não se permitem-las, no fundo, estão sempre à postos para que alguma bandeira bonita apareça e os sirva de desculpa para cometer uma crueldade disfarçada. Basta para isso ver a história do cristianismo com sua bandeira de amor ao próximo repleta de sangue. Quem se permite verdadeiramente chorar, depois de algum tempo estará livre de choros. Já quem não se permite andará sempre por aí com sua máscara servindo de muralha escondendo o desespero do fundo de suas almas.
Pare de mentir para si mesmo. Chega de esperar pela mensagem dos anjos. Mate Deus e seus substitutos. Torne-te quem tu és!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pensamentos de um dia nem lá e nem cá


-As vezes precisamos ir para algum lugar simplesmente para perceber que nunca havíamos precisado ir para lá. Porém, precisamos ir até lá para percebermos isso.
-Os seus atos são apenas um reflexo daquilo que você é, e não o contrário. Então, para mudar o que se é não faz sentido se focar em seus atos. Observe eles, analise eles, porém eles não são problemas em si mesmos.
-O problema em não fazer aquilo que estou destinado a fazer não é que estarei falhando em alguma tarefa, o problema é que estarei vivendo uma vida que não é minha.
-O dia em que você perceber que simplesmente não há para onde ir, você perceberá também onde é que você deveria estar.
-Se você sabe quem você é, então você sabe o que deve fazer, pois isso é o que você é.
-Porque as pessoas continuam achando que o mundo precisa ser salvo? Quando é que elas se darão conta de que são elas que precisam de problemas no mundo para que assim possam se tornar "salvadores"?
-No momento em que você perceber que não há necessidade em se evoluir, aí então você começará realmente a evoluir.
-Só aquele que se deu conta de que não há necessidade de se amar é que consegue verdadeiramente amar.
-Não procure lógica na vida. Sua lógica estará sempre limitada àquilo que você atualmente é. Se você quiser superar a si mesmo, a lógica não é o caminho.
-Você não terá medo de obsessores se não tiver medo de si mesmo.
-Normalmente os líderes tem uma necessidade de serem seguidos maior do que a dos seguidores de serem liderados.
-Você apenas se tornará "aquele que você é" no dia em que realmente morrer "aquele que você deveria ser".

domingo, 19 de setembro de 2010

Quando um buda começa a despertar


O problema é que agente cresce sendo ensinado a buscar a felicidade. Agente cresce sendo ensinado a buscar o paraíso. Todos nos ensinam que o sofrimento é ruim. Que o sofrimento é quase que um fracasso. Dizem que nós temos que nos esforçar para sermos felizes.
Todas essas ideias foram marteladas nas nossas cabeças tantas vezes ao longo das ultimas vidas que agente acabou acreditando nelas. E esse é o problema todo.
Felicidade e sofrimento não são diferentes. Assim como esperança e decepção. Onde um existe irá existir também o outro. Ter esperança de que a vida será feliz e alegre é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Esperança não pode trazer nada de bom. Inclusive ela impede que você esteja realmente aberto para a vida. A questão importante é experimentar a vida. Estar aberto sem julgamentos para o que ela venha a trazer.
Quando você julga o seu sofrimento você se mistura com ele, e isso só aumenta o problema. Esqueça a ideia de felicidade, esqueça a ideia do paraíso. Quando o paraíso sumir da sua cabeça então você perceberá que o inferno também haverá desaparecido. Um não vive sem o outro. Mas se a vida trouxer o inferno para você, não fuja. Viva-o e não crie julgamentos de que ele não deveria estar lá. Apenas o observe. Deixe ele lá. Se os julgamentos não aparecerem então ele não irá te incomodar. O que te incomoda não é o sofrimento, são os julgamentos. São eles que não te deixam dormir. Quando você aceita o sofrimento então ele não incomoda.
Se você apenas observar o seu sofrimento, sem nenhuma interferência, então você verá que ele não tem como resistir ao seu olhar e irá desaparecer de tanta vergonha. Nesse momento o milagre acontece. Algo totalmente novo surge no lugar dele. Não é a felicidade que surge, é outra coisa. É o nada.
E lembre-se: ter experiências ruins não é ruim. O que é ruim é não ter experiências. Se as experiências que a gente tem são ruins ou boas isso não importa, essa não é a questão. Viva a vida. Se jogue ao vento. O que quer que aconteça será bom, te ajudará a amadurecer. Não importa o que seja.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Desabafos da meia-noite


Por que essa merda da ideia de destino ainda está viva dentro de mim? Enquanto o meu destino viver eu não viverei. Simplesmente não há espaço para os dois na vida. Enquanto eu tiver um futuro eu jamais terei um presente. O futuro só me traz medo. O destino me faz viver com covardia. A própria ideia de destino é fruto da covardia. Destinado à quê? Não há o que fazer. Não há esperança. Não há salvação. Não há Deus. A única coisa que existe é a vida!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Conversas com um espírito de luz


Ó insuportável ser, porque é que você insiste em aparecer para mim? Eu já não deixei bem claro que você não é bem vindo aqui? O quê? Você acha mesmo que um dia eu serei como você? Como? Você quer que eu te siga? Jamais maldito ser que habita os céus. Eu não iria tão baixo assim. Quer conhecer a verdade? Pois então eu te falarei.
Eu não sou mentiroso e entediante como os seus amigos santos. Inclusive eu prefiro a companhia das almas do umbral. Pelo menos eles não mentem em suas intenções. Eles não vestem uma roupa branca para esconder o negro do fundo de suas almas. Você quer que eu te siga? Pois então me escute.
A sua falta de confiança na sua própria verdade é que faz você precisar de seguidores. Convencendo a eles você se convence do que no fundo da sua alma você sabe que é mentira. Você vende um consolo fajuta simplesmente porque você tem o desejo de ser o consolador. Você não se importa com as pessoas, o que você quer é esse título, o consolador. Você engana a todos, você mente descaradamente, você os ajuda a permanecerem na cegueira. Você acha mesmo que os outros precisam de sua ajuda? Você é que precisa dos outros na miséria para poder se sentir necessário. No fundo tudo se resume a isso, você odeia a sua vida, você odeia o que você é, você odeia o tamanho da sua insignificância. Por isso você finge isso tudo que você faz. Você quer ter um significado para alguém, pois talvez assim você se esqueça do ninguém que você é.
Maldito diabo celeste! Porque você não vai embora? Você não vê que eu estou na borda de me tornar um buda? O que é isso? É inveja? Por ver que alguém que não faz da vida um sacrifício e uma tortura de si mesmo possa encontrar aquilo que vocês sempre pregaram mas nunca encontraram? Sim, estou falando do amor. O quê? Vejo medo agora em seus olhos. O que os seus cegos seguidores achariam disso? Uma pobre alma indefesa diante de um louco.
Sim, eu falo do amor. Mas falo não como outros profetas que eram tão cegos como você. Eles falavam de algo que nunca haviam experimentado. Eu falo do amor pois ele já brotou em mim. As vezes ele aparece. As vezes ele vem como uma suave brisa. Não, ele não é o contrário do ódio. É por isso que vocês malditos espíritos de luz jamais entenderão. Esse amor que vocês pregam é apenas o medo que vocês tem em serem odiados. O meu amor não é isso. Ele não é para ninguém, nem mesmo é meu. Não sou eu que possuo ele, é ele que me possui. Não é algo que se tem, é algo que se é.
Não, não adianta, você não entenderá. Isso é tão longe do que você jamais experimentou que você não tem a menor condição de entender o que falo. Mas não se preocupe. A minha mensagem não é para você. Ela não é para pessoas como você. No fundo ela não é para ninguém. Ela é simplesmente um grito de liberdade jogado ao ar para quem o quiser.
É um grito para me livrar de todo aquele lixo que eu acumulei em mim na época em que eu dava ouvidos a idiotas como você.
Mas agora chega! Saia daqui e não volte mais! Eu já cansei dessa baixaria que você carrega por onde quer que você passa. Não me venha mais com o seu deus. Eu já cansei de ser um seguidor, cansei de ter sido criado. Agora é hora de me tornar um criador. De criar a minha própria vida. Agora saia daqui.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O encontro


Senhores, hoje eu tenho algo muito especial para contá-los. Hoje eu tive um encontro com Deus.
Sim, vocês podem não estar acreditando, mas hoje finalmente ele resolveu aparecer para mim. Eu estava sozinho no meu quarto lendo A Gaia Ciência do meu amigo Nietzsche, quando de repente uma energia sem forma apareceu do nada na minha frente, e eis que ela me disse: "Olá, eu sou Deus."
E a conversa seguiu da seguinte maneira...

Eu - Eu não acredito. Eu te matei a alguns anos atrás, como é que você pode ainda estar vivo?
Deus - Existem muitas coisas que você ainda não entende. Eu não posso morrer. Se eu pudesse morrer pode estar certo que eu mesmo já teria me matado a muito tempo. Ou você acha que é agradável passar toda a eternidade aguentando a todos os tipos de seres humanos jogando a responsabilidade por tudo que ocorre em suas vidas em cima de mim?
Eu - Uai! Mas no fim das contas a culpa é toda sua. Afinal, foi você quem os criou desse jeito.
Deus- Tá bom eu já sei. Não precisa jogar isso na minha cara. Na verdade é exatamente por isso que eu estou aqui. Para que você mande uma mensagem a eles em meu nome. Para ajudá-los.
Eu - Não vem com essa não. Todo mundo que até hoje falou em seu nome só falou bobagem. Se você quiser mandar uma mensagem para os humanos procure algum cristão, ou melhor, vai num centro espírita que lá eles vão adorar encorporar Deus.
Deus - Desculpa, mas vai ter que ser você. Não tem outro jeito.
Eu - Como assim?
Deus - Acontece que os mensageiros que eu enviei não deram muito certo. Não posso culpá-los, pois a maioria falou exatamente o que eu disse para eles falarem. Acontece que a coisa deu errada, e por isso eu mudei de opinião.
Eu - Mas pode um Deus mudar de opinião?
Deus - Claro! Eu posso tudo. Você por um acaso se esqueceu que eu sou Deus?
Eu - Tudo bem! Mas o que que passa na sua cabeça agora?
Deus - Eu preciso libertar a humanidade.
Eu - Libertar a humanidade de que?
Deus - De mim.
Eu - Nisso eu concordo.
Deus - Não precisa vir com gracinhas para cima de mim.
Eu - Desculpa! É que eu nunca havia conversado com um Deus antes. Essa experiência é nova para mim.
Deus - Isso é irrelevante. Apenas se concentre no que você terá que dizer.
Eu - Espera um pouco. Mas você ainda não me explicou porque tem que ser eu?
Deus - Pois obviamente eu não posso enviar essa mensagem por alguém que acredita em mim. Um cristão certamente pensaria que eu sou o Diabo, e não Deus. Eu não consigo mais conversar direito com nenhum cristão hoje em dia.
Eu - Sim, mas existem muitos outros ateus espalhados por aí.
Deus - Os ateus são piores ainda. Quem você acha que é mais crente? um ateu na minha não existência ou um cristão na minha existência? Eu vou te explicar melhor tudo. Parece que você é meio lerdo para entender as coisas.
(Deus fez uma pausa, pensou um pouco, respirou fundo e depois continuou)
Deus - O crente acredita em mim basicamente por um motivo. Ele tem medo da vida. Ele tem tanto medo da vida, tanto medo de ser o responsável por suas decisões, que joga tudo pra cima de mim. Como gostam de falar "Que seja o que Deus quiser". Porque tem que ser de acordo com o que eu quiser? Será que eles não percebem que eu os criei para serem donos de si mesmos, para serem livres, e não para serem escravos da minha vontade? Não tem jeito, se acontece algo de bom em suas vidas logo vem dando graças a Deus, como se fosse eu que tivesse proporcionado aquilo a eles. Quando acontece uma desgraça logo pensam "Deus sabe o que faz", "Ele escreve certo por linhas tortas". Não tem jeito, na vida deles absolutamente tudo que acontece eles acham que é por minha causa. Assim não dá mais. Eles tem que parar de levar a vida que eu quero e começar a levar a vida que eles querem.
Eu - Sim. Mas e os ateus?
Deus - Ah sim. Já ia me esquecendo. O que acontece é que os ateus também são movidos pelo medo da vida. Tá certo que de uma forma um pouco diferente, mas no fundo é o mesmo medo. Eles tem medo de viver em um mundo onde exista um Deus. Eles me negam por medo de acreditar que eu existo, por medo de serem punidos, por medo do inferno.
Eu - Mas eu confesso que esse medo me parece muito mais razoável.
Deus - Não interessa! No fundo é tudo crença. É tudo fé. O ateu tem fé de que eu não existo. Por isso é que eu não posso passar a minha mensagem por nenhum deles. Simplesmente eles não acreditariam que eu sou realmente Deus. Eles não aceitariam que eu existo nem se me vissem.
Eu - Mas e porque eu?
Deus - Mas você é devagar mesmo, hein?
Eu - Vem cá! Você quer que eu leve a sua mensagem ou não? Então é melhor você também parar com gracinhas.
Deus - Enfim, tem que ser você por um simples motivo. Quando a minha existência começou a te incomodar imensamente, ao invés de simplesmente não mais acreditar em mim, você decidiu me matar.
Eu - Mas antes de mim já houveram outros assim, não?
Deus - Sim, já houveram. E eu tentei passar a mensagem por muitos deles. Em alguns casos eu até tive um pouco de sucesso. Minha ultima tentativa foi em um tal de Friedrich que escreveu uns livros de filosofia por aí. Aquele lá sim, entendeu muita coisa do que eu disse. Na verdade acho até mesmo que ele conhecia o ser humano melhor do que eu. O problema foi que ninguém percebeu que tinha o meu dedo naquilo que ele disse. Por isso ninguém percebeu que até mesmo eu concordava com o que ele dizia. Para dizer a verdade eu aprendi muita coisa com ele.
Eu - Mas pode um Deus aprender algo com os humanos?
Deus - Como eu já te disse, eu sou Deus, eu posso tudo. Não me venha dizer o que eu posso ou não posso fazer.
Eu - Mas então...
Deus - O fato é que eu já não aguento mais os seres humanos. Eu já cansei de ser pai. Eu quero que eles cresçam e parem de uma vez por todas de precisar de mim. Eu quero finalmente me aposentar. Quero enfim descançar. E você precisa me ajudar.
Eu - E o que eu ganho com isso?
Deus - Como assim o que você ganha com isso? Virou mais um capitalista agora?
Eu - Hahaha! Você tá certo. Foi mal aí!
Deus - Mas então. Eu não vou te dar nada em troca. Eu não sou um comerciante. Vim até você pois sei que você terá um enorme prazer em livrar as pessoas da minha presença.
Eu - Realmente você tem razão. Já passou da hora de você sumir de vez da vida dos seres humanos. E isso realmente me dará um enorme prazer.
Deus - Por isso que eu vim a você. Ambos sairemos mais tranquilos dessa jornada. Eu terei mais paz de espírito e você terá a sua vingança contra todo o sofrimento acumulado pela vida não vivida que você levava em nome da "minha vontade", em nome da maldita "vontade de Deus".
Eu - Muito justo.
Deus - E que finalmente seja feita a vossa vontade, e não mais a minha!
Eu - Que assim seja!
Deus -Amém!

Depois disso Deus desapareceu. E confesso que pela primeira vez em muito tempo eu até tive simpatia por ele. Percebi que não apenas a humanidade precisa se livrar dele, mas também ele precisa se livrar da humanidade. Realmente não deve ser fácil ser Deus.
Enfim, aqui fica o registro de uma das conversas mais interessantes que eu já tive em minha vida. Hoje eu me encontrei com Deus.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Alguns aforismos


1 - Não há muita diferença entre impor a alguém a moral do amor ou impor a alguém a moral do ódio, ambos são atos de tirania e opressão. O problema não reside no que está sendo imposto, mas sim no ato de se estar impondo algo.

2 - Não reconhecer a própria grandeza não é um ato de humildade, mas sim de covardia.

3 - Querer que os outros sejam humildes não é um ato de sensatez e nem de bondade, mas sim de covardia, é fruto do nosso medo de perceber que o outro de fato possa ser maior do que nós somos.

4 - Não há nada mais orgulhoso do que querer ser humilde. Só deseja para si a humildade quem deseja fazer disso mais um motivo para sentir-se orgulhoso.

5 - Será possível que alguém tenha fé em algo que não queira que seja verdade? Daí podemos ver de onde que nasce essa suposta virtude, que não passa de medo em encarar de frente a realidade da existência humana.

6 - Do ponto de vista da pessoa que tem fé, a sua fé será sempre raciocinada.

7 - A infelicidade que alguém experimenta não é proporcional ao tamanho da desgraça que acontece na sua vida, mas sim proporcional à diferença entre o que acontece e o que a pessoa idealizou que aconteceria.

8 - Só deseja a aprovação dos outros quem não aprova a si mesmo.

9 - Só tenta convencer os outros sobre alguma verdade quem tem dúvidas sobre a própria verdade. Convencer os outros é um remédio para tentar convencer a si mesmo. É por isso que as religiões estão sempre em busca de novos adeptos. O medo de que a sua crença não seja verdade é absurdamente grande.

10 - Enquanto você tiver um deus, você jamais se tornará um.

11 - Só prega o amor ao próximo quem tem medo de ser odiado.

12 - Quando elogiamos os outros, ou alguma coisa que não fomos nós os autores, no fundo o que estamos fazendo é elogiar a relação que temos com essa coisa, ou com essa pessoa. Os pais elogiam os filhos para crerem que foram bons pais. Elogiamos livros que lemos para dizermos que somos leitores de bons livros. Elogiamos nossos parceiros para acreditarmos que não fomos medíocres o bastante para perdermos grande parte de nossa liberdade em nome de um tolo qualquer. No fundo, todos os elogios que fazemos são sempre direcionados apenas a nós mesmos.

13 - Evolução não existe. As pessoas somente encontrarão o que sempre buscaram apenas no dia em que perceberem que elas não precisam melhorar. Quando largarem a ideia de que falta algo, de que são incompletas, de que são feias, aí sim perceberão que tudo sempre esteve aqui. A evolução nunca foi necessária. Muito pelo contrário, ela sempre foi uma barreira.

14 - Só deseja ir para o céu depois da morte aqueles que tem um enorme desprazer em viver. Quem desfruta a existência com dança, liberdade e alegria já encontrou o céu durante a vida. Esse não tem necessidade nenhuma de ir pra lugar algum depois da morte.

15 - O cristão é movido basicamente pelo medo do inferno. Tudo que ele faz, o faz pensando na salvação, no caminho para o céu, fugindo do inferno. Como pode a vida de uma pessoa dessas ser uma celebração de alegria e êxtase, sendo que o combustível que a move durante todo o tempo é apenas o medo? Uma vida baseada no medo jamais será uma dança, jamais será um canto, jamais será uma poesia.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Trecho de "Dialética Erística" de Arthur Schopenhauer


De fato, não existe nenhuma opinião, por absurda que seja, que os homens não se lancem a torná-la sua, tão logo se tenha chegado a convencê-los de que é universalmente aceita. O exemplo vale tanto para suas opiniões quanto para sua conduta. São ovelhas que vão atrás do carneiro-guia aonde quer que as leve. Para eles é mas fácil morrer do que pensar. (...)
O que se chama opinião geral reduz-se, para sermos preciso, à opinião de duas ou três pessoas; e ficaríamos convencidos disto se pudéssemos ver a maneira como nasce tal opinião universalmente válida. Então descobriríamos que, num primeiro momento, foram dois ou três que pela primeira vez as assumiram e apresentaram ou afirmaram e que os outros foram tão benevolentes com eles que acreditaram que as haviam examinado a fundo; prejulgando a competência destes, outros aceitaram igualmente essa opinião e nestes acreditaram por sua vez muitos outros a quem a preguiça mental impelia a crer de um golpe antes que tivessem o trabalho de examinar as coisas com rigor. Assim crescem dia após dia o número de tais seguidores preguiçosos e crédulos.
De fato, uma vez que a opinião tinha um bom número de vozes que a aceitavam, os que vieram depois supuseram que só podia ter tantos seguidores pelo peso concludente de seus argumentos. Os demais, para não passar por espíritos inquietos que se rebelam contra opiniões universalmente admitidas e por sabichões que quisessem ser mais espertos que o mundo inteiro, foram obrigados a admitir o que todo mundo já aceitava. Neste ponto, a concordância torna-se uma obrigação. E, de agora em diante, os poucos que forem capazes de julgar por si mesmos se calarão, e só poderão falar aqueles que, totalmente incapazes de ter uma opinião e juízo próprios, sejam o eco das opiniões alheias. E estes, ademais, são os mais apaixonados e intransigentes defensores dessas opiniões. Pois estes, na verdade, odeiam aquele que pensa de modo diferente, não tanto por terem opinião diversa daquela que ele afirma, quanto pela sua audácia de querer julgar por si mesmo, coisa que eles nunca poderão fazer, sendo por dentro conscientes disto.
Em suma, são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões. E que outra coisa lhes resta senão tomá-las de outros em lugar de formá-las por conta própria? E, dado que isto é o que sucede, que pode valer a voz de centenas de milhões de pessoas?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O homem


É chegado o tempo de novos homens. A humanidade já não aguenta mais carregar o fardo do passado. A moral serviu para esmagar o homem, para fazê-lo sentir-se feio. Depois da invenção da moral os humanos passaram a se esconder, acumularam culpa atrás de culpa e nunca mais conseguiram ver o quão bonito sempre foram. Passaram a não ser livres, e por causa do sentimento de culpa e da não aceitação de si mesmos começaram a julgar os outros. Nesse ponto sua liberdade diminuiu ainda mais, pois quando julgamos estamos nos proibindo moralmente de cometer tais atos. Toda essa loucura criou um peso insuportável na alma das pessoas. As depressões e os suicídios mostram isso. Esse peso transformou a vida em um fardo. A vida que deveria ser uma celebração de si mesma, da beleza humana, da liberdade dos desejos, passou a ser um fardo. A existência, tão bela e amável, ao ganhar o nome de Deus passou a ser tirana e opressora. As pessoas não amam à Deus, elas o temem. Elas temem descobrir que no fundo sempre foram livres, que sempre foram belas, que não existe caminho a ser seguido, pois a vida e tudo que precisamos já estão aqui e agora. Não há a necessidade de se buscar nada no futuro. Quem coloca a felicidade no futuro jamais a terá no presente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Trechos de A Gaia Ciência de Friedrich Nietzsche


Contra os caluniadores da natureza - Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! É em função disso que se encontra tão pouca nobreza em meio aos homens, pois a nobreza de uma alma se reconhecerá sempre no fato de não ter medo de si próprio, não esperar nada de vergonhoso e voar sem escrúpulos por toda a parte, tal pássaro nascido livre como é, onde o seu desejo o impele! Aonde quer que vá, será sempre rodeado pelo sol e pela liberdade.

Domínio sobre si - Esses professores da moral que recomendam ao homem acima de tudo que se autodomine, dão-lhe dessa forma, uma singular doença, ou seja, uma constante irritabilidade e uma comichão a todas às emoções e inclinações mais naturais. Seja o que for que lhe aconteça daqui para frente, seja de fora, seja de dentro, seja o que for que ele aí encontre ou que o atraia, ou que o incite, ou que empurre, parece sempre a este ser irritadiço que o seu domínio sobre si corre os maiores perigos: já não tem o direito de se fiar em nenhum instinto, de se abandonar a nenhum impulso livre, mantém-se na defensiva, sem repouso, eriçado de armas contra ele próprio, o olhar atento e desconfiado, mantendo eternamente diante da própria torre uma guarda que se impôs a ele mesmo. Por certo, ele pode ser grande nesse papel! Mas como se tornou insuportável aos outros, pesado para si mesmo, pobre, enfim, hermeticamente fechado aos mais belos acasos da alma! Como também, a qualquer outra lição futura! É preciso, pois, de vez em quando, saber perder-se, se quisermos aprender alguma coisa daquilo que nós próprios não somos.

Trecho de 'Richard Wagner em Bayreuth' de Friedrich Nietzsche


A paixão é melhor do que o estoicismo e a hipocrisia; ser sincero, mesmo no mal vale mais do que perder-se a si próprio na moralidade da tradição, o homem livre pode escolher ser bom ou mau, mas o homem não-livre é uma vergonha da natureza e não tem direito a nenhuma consolação celeste ou terrestre; enfim, todo aquele que deseja tornar-se livre só poderá fazê-lo pelos seus próprios meios, a liberdade nunca cai do céu a ninguém por milagre.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O não-caminho


Não há o que fazer. Não há para onde ir. A existência já nos dá tudo aqui e agora. A própria busca por algo é fruto do nosso desconhecimento sobre a vida. O ser humano nasce iluminado, ele é iluminado. Ele não tem que buscar isso, ele tem apenas que perceber que não há o que buscar, pois ele já é. Quando se percebe essa verdade, então a partir do não-agir, sem absolutamente nenhum esforço, sem nenhuma vontade, o milagre acontece. Nesse ponto a pessoa pela primeira vez nasce de verdade. Nesse momento, no absoluto silêncio, a vida e o homem passam a ser um só. Não há mais barreiras, não há mais limites. Quando a busca some, quando a expectativa some, então tudo vira um. A pessoa deixa de ser e apenas a pura existência passa a ser. Não há mais o que fazer. Nunca houve o que fazer. O fazer e o querer fazer sempre foram obstáculos. A vida está aqui e agora. Esse exato instante, quando experimentado em profundo silêncio, contém todos os segredos de todo o universo. Tudo é um. Não há mais fronteiras. Há apenas uma doce celebração da vida.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Carta para a humanidade


Ó minha querida humanidade, meus queridos seres humanos, seres que na maioria dos vezes os odeio, seres que não me deixam em paz, que querem me transformar em uma cópia, em uma ovelha. Hoje eu vos falo do fundo do meu coração, apesar de tudo eu gosto de vocês. Apesar da insuportável mediocridade que se fantasia de prepotência, da covardia que acredita ser sensatez, do egoísmo injustamente condenado a repreensão, apesar disso tudo hoje eu amo vocês.

Há algo nos seres humanos que é divino. Algo que não tem nada a ver com esse Deus criado pela fantasia e pelo medo da vida que as pessoas tem, mas algo divinamente humano, ou humanamente divino, algo que os homens insistem em tampar os olhos para não ver. Algo que não transformaria os humanos em santos em hipótese nenhuma, é algo que só consegue ver a pessoa que olha para si mesma como é, como um humano cheio de defeitos, cheio de incertezas, cheio de desejos, um humano com ânsia de viver humanamente. Esse ser encontra esse algo, e é por causa dele que hoje eu escrevo à todos vocês.

Esses humanos não foram criados especiais, na verdade eles não tem nada de incomum, pois são apenas humanos, assim como vocês. A diferença é que ele consegue se ver, já vocês não sabem quem são. Quando vocês escolheram virar santos, quando quiseram tomar a estrada da perfeição, vocês se perderam, vocês nunca mais conseguiram se olhar em um espelho, vocês passaram a ter nojo do que há de mais nobre e bonito em vocês que é a humanidade intrínseca a sua existência. Vocês viraram ao avesso, são humanos ao contrário, são sofredores que vagam no mundo tendo que carregar o fardo que é a vida.

Mas vos direi a verdade, mesmo a vocês eu os amo, mesmo aos cegos da alma eu os amo, pois mesmo que vocês estejam com os olhos fechados sem querer enxergar nada além do seu Deus tirano, o universo clama pela suas existências. Quando vocês choram todo o cosmos chora com vocês, quando vocês se reprimem todo o universo se reprime com vocês, quando vocês escolhem não mais se conhecerem o universo passa também a não mais saber quem é. E é por isso que estou aqui hoje, para pedir que vocês abram os olhos e vejam quem vocês são, não se culpem por serem humanos pois é exatamente isso que os tornam divinos, não tenham medo de dançar porque quando vocês dançam o universo inteiro entra no ritmo de suas músicas, quando vocês riem a natureza toda dá gargalhadas ao mesmo instante. Não tenham medo do desconhecido, pois apenas o que é desconhecido é que serve para manter a beleza da vida. Sintam gosto pelo incerto, pois a certeza os tornam feios. Não acreditem em nada, experimentem tudo, experimentem a vida que está aí fora aguardando por vocês. Não combatam o ser humano lindo que há dentro de vocês louco para finalmente ser humano sem se sentir culpado por isso. Amem a vocês mesmos, exatamente do jeito que vocês são e subitamente vocês verão que todo o universo os ama do mesmo jeito, na verdade ele sempre os amou assim, vocês é que não queriam ver. O universo nunca os julgou, ele nunca apontou o dedo para a cara de vocês, ele nunca criou nenhuma moral, isso tudo foi obra dos cegos de espírito.

Mas os tempos em breve serão outros, finalmente não será mais época de Santos, talvez até mesmo Deus possa finalmente ser esquecido e sumir de vez da cabeça das pessoas, finalmente talvez o ser humano consiga olhar para si mesmo sem máscaras e ver a verdade que sempre esteve nele, a beleza que sempre esteve nele, a sua humanidade reprimida. Talvez o ser humano possa enfim se tornar o Deus de sua própria vida, o dono de sua própria moral e o criador de sua própria verdade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Trecho de "O profeta" de Kahlil Gibran


Sobre as leis

Então um homem de leis disse, e as nossas Leis, Mestre?
E ele respondeu:
Deleitais-vos a fazer as leis, no entanto, mais vos deleitais em as desrespeitar.
Como crianças brincando junto ao oceano, a construir castelos de areia com persistência para logo os destruírem alegremente.
Mas enquanto construís os vossos castelos de areia o oceano traz mais areia para a costa, e, quando vós os destruís, o oceano ri-se convosco.
Na verdade o oceano ri-se sempre com os inocentes.
Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, e as leis feitas pelo homem não são castelos de areia, mas para quem a vida é uma rocha, e a lei um cinzel que serve para a moldarem à sua semelhança?
Que dizer do aleijado que detesta dançarinos?
Que dizer do boi que gosta do jugo e condena o cisne e o gamo da floresta por serem seres errantes e vagabundos?
Que dizer da velha serpente que não consegue despir-se da sua pele e acusa os outros de estarem nus e não terem pudor?
E daquele que aparece cedo na festa do casamento, e que, depois de bem alimentado e já cansado, se vai embora dizendo que todas as comemorações são violação e os participantes violadores de leis?
Que poderei dizer desses a não ser que também eles estão expostos à luz, mas de costas viradas para o sol?
Só conseguem ver as suas sombras, e as suas sombras são as suas leis.
E que é o sol para eles senão um conjunto de sombras?
E o que significa reconhecer as leis senão curvar-se e traçar as suas sombras na terra?
Mas vós, que caminhais enfrentando o sol, que imagens da terra podereis reter?
Vós, que viajais com o vento, que catavento poderá orientar o vosso rumo?
Que lei do homem vos prenderá se quebrais o vosso jugo longe da porta da prisão?
Que leis receareis se dançardes mas tropeçardes em grilhetas inexistentes?
E quem vos poderá julgar se despedaçardes as vossas roupas sem todavia as deixardes no caminho de nenhum homem?
Povo de Orfalés, podereis abafar o tambor e alargar as cordas da lira, mas quem poderá impedir a cotovia de cantar?