segunda-feira, 26 de abril de 2010

Trecho de "Dialética Erística" de Arthur Schopenhauer


De fato, não existe nenhuma opinião, por absurda que seja, que os homens não se lancem a torná-la sua, tão logo se tenha chegado a convencê-los de que é universalmente aceita. O exemplo vale tanto para suas opiniões quanto para sua conduta. São ovelhas que vão atrás do carneiro-guia aonde quer que as leve. Para eles é mas fácil morrer do que pensar. (...)
O que se chama opinião geral reduz-se, para sermos preciso, à opinião de duas ou três pessoas; e ficaríamos convencidos disto se pudéssemos ver a maneira como nasce tal opinião universalmente válida. Então descobriríamos que, num primeiro momento, foram dois ou três que pela primeira vez as assumiram e apresentaram ou afirmaram e que os outros foram tão benevolentes com eles que acreditaram que as haviam examinado a fundo; prejulgando a competência destes, outros aceitaram igualmente essa opinião e nestes acreditaram por sua vez muitos outros a quem a preguiça mental impelia a crer de um golpe antes que tivessem o trabalho de examinar as coisas com rigor. Assim crescem dia após dia o número de tais seguidores preguiçosos e crédulos.
De fato, uma vez que a opinião tinha um bom número de vozes que a aceitavam, os que vieram depois supuseram que só podia ter tantos seguidores pelo peso concludente de seus argumentos. Os demais, para não passar por espíritos inquietos que se rebelam contra opiniões universalmente admitidas e por sabichões que quisessem ser mais espertos que o mundo inteiro, foram obrigados a admitir o que todo mundo já aceitava. Neste ponto, a concordância torna-se uma obrigação. E, de agora em diante, os poucos que forem capazes de julgar por si mesmos se calarão, e só poderão falar aqueles que, totalmente incapazes de ter uma opinião e juízo próprios, sejam o eco das opiniões alheias. E estes, ademais, são os mais apaixonados e intransigentes defensores dessas opiniões. Pois estes, na verdade, odeiam aquele que pensa de modo diferente, não tanto por terem opinião diversa daquela que ele afirma, quanto pela sua audácia de querer julgar por si mesmo, coisa que eles nunca poderão fazer, sendo por dentro conscientes disto.
Em suma, são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões. E que outra coisa lhes resta senão tomá-las de outros em lugar de formá-las por conta própria? E, dado que isto é o que sucede, que pode valer a voz de centenas de milhões de pessoas?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O homem


É chegado o tempo de novos homens. A humanidade já não aguenta mais carregar o fardo do passado. A moral serviu para esmagar o homem, para fazê-lo sentir-se feio. Depois da invenção da moral os humanos passaram a se esconder, acumularam culpa atrás de culpa e nunca mais conseguiram ver o quão bonito sempre foram. Passaram a não ser livres, e por causa do sentimento de culpa e da não aceitação de si mesmos começaram a julgar os outros. Nesse ponto sua liberdade diminuiu ainda mais, pois quando julgamos estamos nos proibindo moralmente de cometer tais atos. Toda essa loucura criou um peso insuportável na alma das pessoas. As depressões e os suicídios mostram isso. Esse peso transformou a vida em um fardo. A vida que deveria ser uma celebração de si mesma, da beleza humana, da liberdade dos desejos, passou a ser um fardo. A existência, tão bela e amável, ao ganhar o nome de Deus passou a ser tirana e opressora. As pessoas não amam à Deus, elas o temem. Elas temem descobrir que no fundo sempre foram livres, que sempre foram belas, que não existe caminho a ser seguido, pois a vida e tudo que precisamos já estão aqui e agora. Não há a necessidade de se buscar nada no futuro. Quem coloca a felicidade no futuro jamais a terá no presente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Trechos de A Gaia Ciência de Friedrich Nietzsche


Contra os caluniadores da natureza - Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! É em função disso que se encontra tão pouca nobreza em meio aos homens, pois a nobreza de uma alma se reconhecerá sempre no fato de não ter medo de si próprio, não esperar nada de vergonhoso e voar sem escrúpulos por toda a parte, tal pássaro nascido livre como é, onde o seu desejo o impele! Aonde quer que vá, será sempre rodeado pelo sol e pela liberdade.

Domínio sobre si - Esses professores da moral que recomendam ao homem acima de tudo que se autodomine, dão-lhe dessa forma, uma singular doença, ou seja, uma constante irritabilidade e uma comichão a todas às emoções e inclinações mais naturais. Seja o que for que lhe aconteça daqui para frente, seja de fora, seja de dentro, seja o que for que ele aí encontre ou que o atraia, ou que o incite, ou que empurre, parece sempre a este ser irritadiço que o seu domínio sobre si corre os maiores perigos: já não tem o direito de se fiar em nenhum instinto, de se abandonar a nenhum impulso livre, mantém-se na defensiva, sem repouso, eriçado de armas contra ele próprio, o olhar atento e desconfiado, mantendo eternamente diante da própria torre uma guarda que se impôs a ele mesmo. Por certo, ele pode ser grande nesse papel! Mas como se tornou insuportável aos outros, pesado para si mesmo, pobre, enfim, hermeticamente fechado aos mais belos acasos da alma! Como também, a qualquer outra lição futura! É preciso, pois, de vez em quando, saber perder-se, se quisermos aprender alguma coisa daquilo que nós próprios não somos.

Trecho de 'Richard Wagner em Bayreuth' de Friedrich Nietzsche


A paixão é melhor do que o estoicismo e a hipocrisia; ser sincero, mesmo no mal vale mais do que perder-se a si próprio na moralidade da tradição, o homem livre pode escolher ser bom ou mau, mas o homem não-livre é uma vergonha da natureza e não tem direito a nenhuma consolação celeste ou terrestre; enfim, todo aquele que deseja tornar-se livre só poderá fazê-lo pelos seus próprios meios, a liberdade nunca cai do céu a ninguém por milagre.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O não-caminho


Não há o que fazer. Não há para onde ir. A existência já nos dá tudo aqui e agora. A própria busca por algo é fruto do nosso desconhecimento sobre a vida. O ser humano nasce iluminado, ele é iluminado. Ele não tem que buscar isso, ele tem apenas que perceber que não há o que buscar, pois ele já é. Quando se percebe essa verdade, então a partir do não-agir, sem absolutamente nenhum esforço, sem nenhuma vontade, o milagre acontece. Nesse ponto a pessoa pela primeira vez nasce de verdade. Nesse momento, no absoluto silêncio, a vida e o homem passam a ser um só. Não há mais barreiras, não há mais limites. Quando a busca some, quando a expectativa some, então tudo vira um. A pessoa deixa de ser e apenas a pura existência passa a ser. Não há mais o que fazer. Nunca houve o que fazer. O fazer e o querer fazer sempre foram obstáculos. A vida está aqui e agora. Esse exato instante, quando experimentado em profundo silêncio, contém todos os segredos de todo o universo. Tudo é um. Não há mais fronteiras. Há apenas uma doce celebração da vida.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Carta para a humanidade


Ó minha querida humanidade, meus queridos seres humanos, seres que na maioria dos vezes os odeio, seres que não me deixam em paz, que querem me transformar em uma cópia, em uma ovelha. Hoje eu vos falo do fundo do meu coração, apesar de tudo eu gosto de vocês. Apesar da insuportável mediocridade que se fantasia de prepotência, da covardia que acredita ser sensatez, do egoísmo injustamente condenado a repreensão, apesar disso tudo hoje eu amo vocês.

Há algo nos seres humanos que é divino. Algo que não tem nada a ver com esse Deus criado pela fantasia e pelo medo da vida que as pessoas tem, mas algo divinamente humano, ou humanamente divino, algo que os homens insistem em tampar os olhos para não ver. Algo que não transformaria os humanos em santos em hipótese nenhuma, é algo que só consegue ver a pessoa que olha para si mesma como é, como um humano cheio de defeitos, cheio de incertezas, cheio de desejos, um humano com ânsia de viver humanamente. Esse ser encontra esse algo, e é por causa dele que hoje eu escrevo à todos vocês.

Esses humanos não foram criados especiais, na verdade eles não tem nada de incomum, pois são apenas humanos, assim como vocês. A diferença é que ele consegue se ver, já vocês não sabem quem são. Quando vocês escolheram virar santos, quando quiseram tomar a estrada da perfeição, vocês se perderam, vocês nunca mais conseguiram se olhar em um espelho, vocês passaram a ter nojo do que há de mais nobre e bonito em vocês que é a humanidade intrínseca a sua existência. Vocês viraram ao avesso, são humanos ao contrário, são sofredores que vagam no mundo tendo que carregar o fardo que é a vida.

Mas vos direi a verdade, mesmo a vocês eu os amo, mesmo aos cegos da alma eu os amo, pois mesmo que vocês estejam com os olhos fechados sem querer enxergar nada além do seu Deus tirano, o universo clama pela suas existências. Quando vocês choram todo o cosmos chora com vocês, quando vocês se reprimem todo o universo se reprime com vocês, quando vocês escolhem não mais se conhecerem o universo passa também a não mais saber quem é. E é por isso que estou aqui hoje, para pedir que vocês abram os olhos e vejam quem vocês são, não se culpem por serem humanos pois é exatamente isso que os tornam divinos, não tenham medo de dançar porque quando vocês dançam o universo inteiro entra no ritmo de suas músicas, quando vocês riem a natureza toda dá gargalhadas ao mesmo instante. Não tenham medo do desconhecido, pois apenas o que é desconhecido é que serve para manter a beleza da vida. Sintam gosto pelo incerto, pois a certeza os tornam feios. Não acreditem em nada, experimentem tudo, experimentem a vida que está aí fora aguardando por vocês. Não combatam o ser humano lindo que há dentro de vocês louco para finalmente ser humano sem se sentir culpado por isso. Amem a vocês mesmos, exatamente do jeito que vocês são e subitamente vocês verão que todo o universo os ama do mesmo jeito, na verdade ele sempre os amou assim, vocês é que não queriam ver. O universo nunca os julgou, ele nunca apontou o dedo para a cara de vocês, ele nunca criou nenhuma moral, isso tudo foi obra dos cegos de espírito.

Mas os tempos em breve serão outros, finalmente não será mais época de Santos, talvez até mesmo Deus possa finalmente ser esquecido e sumir de vez da cabeça das pessoas, finalmente talvez o ser humano consiga olhar para si mesmo sem máscaras e ver a verdade que sempre esteve nele, a beleza que sempre esteve nele, a sua humanidade reprimida. Talvez o ser humano possa enfim se tornar o Deus de sua própria vida, o dono de sua própria moral e o criador de sua própria verdade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Trecho de "O profeta" de Kahlil Gibran


Sobre as leis

Então um homem de leis disse, e as nossas Leis, Mestre?
E ele respondeu:
Deleitais-vos a fazer as leis, no entanto, mais vos deleitais em as desrespeitar.
Como crianças brincando junto ao oceano, a construir castelos de areia com persistência para logo os destruírem alegremente.
Mas enquanto construís os vossos castelos de areia o oceano traz mais areia para a costa, e, quando vós os destruís, o oceano ri-se convosco.
Na verdade o oceano ri-se sempre com os inocentes.
Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, e as leis feitas pelo homem não são castelos de areia, mas para quem a vida é uma rocha, e a lei um cinzel que serve para a moldarem à sua semelhança?
Que dizer do aleijado que detesta dançarinos?
Que dizer do boi que gosta do jugo e condena o cisne e o gamo da floresta por serem seres errantes e vagabundos?
Que dizer da velha serpente que não consegue despir-se da sua pele e acusa os outros de estarem nus e não terem pudor?
E daquele que aparece cedo na festa do casamento, e que, depois de bem alimentado e já cansado, se vai embora dizendo que todas as comemorações são violação e os participantes violadores de leis?
Que poderei dizer desses a não ser que também eles estão expostos à luz, mas de costas viradas para o sol?
Só conseguem ver as suas sombras, e as suas sombras são as suas leis.
E que é o sol para eles senão um conjunto de sombras?
E o que significa reconhecer as leis senão curvar-se e traçar as suas sombras na terra?
Mas vós, que caminhais enfrentando o sol, que imagens da terra podereis reter?
Vós, que viajais com o vento, que catavento poderá orientar o vosso rumo?
Que lei do homem vos prenderá se quebrais o vosso jugo longe da porta da prisão?
Que leis receareis se dançardes mas tropeçardes em grilhetas inexistentes?
E quem vos poderá julgar se despedaçardes as vossas roupas sem todavia as deixardes no caminho de nenhum homem?
Povo de Orfalés, podereis abafar o tambor e alargar as cordas da lira, mas quem poderá impedir a cotovia de cantar?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

As utopias, o anarquismo e a tragédia que é a existência humana


As crenças que nos são ofertadas, principalmente aquelas que são idealistas, ou porque não dizer utópicas, geralmente apresentam um aspecto em comum. Elas são muito mais baseadas nos nossos desejos a respeito do que queremos que seja real do que no que de fato é real. Elas normalmente nos dão respostas para questões existenciais da vida que por coincidência são exatamente as respostas que gostaríamos de ter. Para exemplificar podemos pensar por exemplo no cristianismo e no comunismo que a princípio são duas crenças bastante antagônicas, porém, se formos analisar mais a fundo, podemos ver que ambas vendem uma ilusão bastante parecida. A única diferença é que o que o cristianismo oferece no céu, o comunismo oferece na terra.
O reino de Deus é a resposta que o cristão deseja frente ao sofrimento que encontra na vida, pois como aqui ele é oprimido, infeliz, injustiçado e acima de tudo impotente em mudar o destino trágico que está fadada a ser a sua existência, o reino dos Céus passa a ser exatamente a compensação que ele tanto deseja por ter passado por tanta desgraça, é a vida em harmonia, em paz e com amor que ele sempre sonhou em ter e que sabe que jamais a terá aqui, é também a sua oportunidade de vingança contra aqueles que o oprimiram e o injustiçaram, pois muitos serão chamados e poucos os escolhidos, e certamente os escolhidos para a vida de amor eterno ao lado de Deus serão apenas os cristãos sofredores, e não os seus algozes a quem esses cristãos sempre desejaram a morte, porém sempre com tremenda impotência de realizá-la. O reino do Céus é a vingança do fraco e oprimido a tanto tempo por ele esperada, a tanto tempo por ele desejada.
Nesse sentido a sociedade vendida pelo comunismo é muito semelhante ao reino dos céus do cristão. O comunista tem a crença de que através dessa ideologia ele poderá construir aqui na terra uma sociedade onde as pessoas vivam em harmonia, em paz, sem opressão e o mais importante sem patrões. O comunismo é exatamente a resposta que o proletário sempre quis ter na vida, é o que ele sempre desejou, é a vingança final contra os burgueses exploradores e os malvados chefes, pois ao reino de Marx também muitos serão chamados e poucos os escolhidos, e obviamente apenas os proletários oprimidos serão os escolhidos, um burgues jamais entrará nesse reino.
Essas duas ideologias cresceram mundialmente e tiveram uma aceitação enorme em todos os lugares nos seus respectivos públicos alvos. Isso se deve principalmente a elas terem vendido exatamente o que as pessoas queriam ouvir, exatamente o que as pessoas sempre quiseram viver, é uma ilusão, porém uma ilusão que tocou profundamente nos desejos mais reprimidos de muita gente. Por ser uma ilusão é que os comunistas, e principalmente os cristãos que nisso são pródigos, muitas vezes negam completamente a realidade das coisas, negam a história e a razão, negam tudo que é possível negar em troca de poderem continuar acreditando na ilusão que é a sua vitória final, ou melhor dizendo, a sua vingança final. Por negarem a realidade trágica em favor de uma mentira boa é que ambos já cometeram tantos crimes ao longo de suas respectivas histórias. Nesse aspecto que diz respeito a semear a morte, o cristianismo ainda leva ampla vantagem, principalmente devido a ele existir a mais tempo, porém, os comunistas se não mudarem alguns conceitos fundamentais um dia também chegarão lá.
Ao ler esse texto você pode estar pensando agora que ao criticar o comunismo eu esteja fazendo um elogio ao capitalismo. Porém, você não poderia estar mais enganado. Eu não quis comparar o capitalismo com o comunismo ou com o cristianismo pelo fato de que eu não considero o capitalismo como uma utopia, pra mim ele é simplesmente uma estupidez, uma idiotice sem tamanho, pois através dele não dá nem para se imaginar a possibilidade de se ter uma sociedade harmônica, pacífica, e com bem estar social. O capitalismo é a destruição humana por excelência, ele se baseia na concorrência, coloca todos contra todos o tempo todo, obriga o que tem mais a precisar ter cada vez mais, ou seja, os obriga a explorar os outros cada vez mais. O capitalismo faz o pobre viver uma vida de medo permanente por causa da fome, e ao mesmo tempo obriga o rico a viver também uma vida de constante medo por causa do esfomeado. Um ganha quando o outro perde. O pobre tem desgosto da vida porque não tem esperança de algo melhor, o rico também tem desgosto da vida pois junto com o seu sucesso veio o incessante medo de perde-lo e também a necessidade de o ter cada vez mais, muitas vezes se enriquece sem nem mesmo saber o porque, simplesmente porque as coisas funcionam assim. A vida do pobre é materialmente uma desgraça, e a do rico humanamente um vazio. Basta olhar para a nossa sociedade que vemos que o número de casos de depressão e suicídio não param de subir. Por isso que não faz sentido comparar o capitalismo a essas outras crenças, simplesmente porque ele já nos seus fundamentos básicos não tem nada de bom a oferecer para ninguém.
Voltando agora as questões das utopias, das ilusões, você deve então estar se perguntando como é que pode um anarquista estar fazendo críticas à crenças utópicas. Realmente a sua preocupação tem fundamento, e faz muito sentido pensar assim, pois a maioria dos anarquistas de fato é extremamente idealista, muitos deles crêem infantilmente que se o Estado desaparecer então teremos uma sociedade organizada, sem crimes, onde as pessoas sejam felizes, onde elas se amem e se ajudem mutuamente. É uma ilusão muito parecida com a de Marx, e porque não dizer também com o reino de Deus? Este tipo de anarquismo eu também o coloco na mesma sacola das outras ilusões, é apenas um desejo reprimido de ser livre, pois até hoje em toda a história da civilização nunca houve liberdade plena de fato. Já houve liberdade para o mercado, porém nunca para os seres humanos.
Entretanto, o anarquismo pode ser entendido de outra forma, não necessariamente como a busca por uma sociedade perfeita, bem organizada e feliz, ele pode e eu o vejo como sendo a busca por uma sociedade também desordenada, trágica, cheia de problemas e sofrimentos, porém uma sociedade que simplesmente é melhor do que essa desgraçada que agente vive hoje. Não necessitamos alimentar esperanças ilusórias de que criaremos uma sociedade perfeita na terra, isso simplesmente não dá para ser feito agora, existir é uma tragédia e por enquanto não dá para fugir disso. As pessoas que tem a coragem de serem sinceras consigo mesmas percebem o que eu estou falando, que o sofrimento causado pela vida em sociedade, pela vida civilizada é por enquanto inevitável. Apenas os covardes que passam a vida inteira mentindo para si mesmos é que podem ter a falsa impressão de que a coisa não é assim, passam a vida inteira fingindo que são plenamente felizes, porém os pesadelos noturnos e o medo da solidão, ou seja o medo de estar a sós consigo mesmo os entrega e os mostra o tamanho de sua miséria.
Na anarquia haveria sofrimento, haveriam assassinatos, roubos, e todos os tipos de problema. Você deve então estar se perguntando por que diabos querer essa anarquia. É simples, pois o fato de viver ser uma tragédia não significa que não possamos rir da vida, que não possamos tentar algo que seja de fato melhor do que isso que temos hoje, e para mim a anarquia representa isso, essa ultima tentativa de algo melhor, de algo mais livre, pois ao longo de toda a história da humanidade o Estado e as leis sempre se mostraram incapazes de impedir os assassinatos, os roubos, as torturas, e inclusive muitas das vezes foi o próprio Estado que causou essas coisas, talvez até mesmo na maioria das vezes. A questão é que o Estado é a maior ilusão de todas, pois sempre foi visto como necessário para proteger os seres humanos de si mesmos, entretanto, ele claramente falhou em sua missão. Ele institucionalizou o assassinato, o roubo, a tortura. Portanto, querer a extinção do Estado, e se possível também das outras instituições de poder, ou seja, querer a anarquia, não quer dizer ter a esperança de viver em uma sociedade perfeita, simplesmente quer dizer uma nova tentativa de algo melhor, onde de alguma forma haja mais liberdade para ser si mesmo, e assim não precisar fingir ser outra pessoa. É uma tentativa de tornar a existência mais suportável, e porque não dizer também mais feliz? É apenas uma nova tentativa, na qual obviamente há a possibilidade do fracasso. Não há garantias de que de fato essa sociedade livre vá ser realmente melhor do que a que temos hoje, porém há motivos para crer que devamos ao menos tentar. Quem sabe a liberdade humana não seja capaz de resolver alguns problemas que Estado nenhum conseguiu até hoje resolver? Se a história futura nos mostrar que a anarquia foi uma fracasso, que não passou apenas de mais uma utopia e que não há nenhuma possibilidade da existência não ser uma tragédia total, então que reergamos os Estado, que sejamos outra vez comunistas, capitalistas, ou melhor ainda que voltemos a crer no reino de Deus. Porém, se a história nos mostrar o contrário, e algumas experiências como por exemplo a guerra civil espanhola de alguma forma nos faz acreditar nisso, então que sejamos anarquistas, que matemos de vez esse monstro que é o Estado, que sejamos livres para poder construir o ser humano do futuro, um ser humano que possa finalmente rir da tragédia que é a vida.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Trecho de genealogia da moral de Friedrich Nietzsche


Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?... Muito bem! Aqui se abre a vista a essa negra oficina. Espere ainda um instante, senhor Curioso e Temerário: seu olho deve primeiro se acostumar a essa luz falsa e cambiante... Certo! Basta! Fale agora! Que sucede ali embaixo? Diga o que vê, homem da curiosidade perigosa - agora sou eu quem escuta.

- "Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurrar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida - é como você disse."

- Prossiga!

- "e a impotência que não acerta contas é mudada em 'bondade'; a baixeza medrosa, em 'humildade'; a submissão àqueles que se odeia em 'obediência' (há alguém que dizem impor esta submissão - chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de 'paciência', chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão ('pois eles não sabem o que fazem - somente nós sabemos o que eles fazem!'). Falam também do 'amor aos inimigos' - e suam ao falar disso."

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O paraíso


Hoje eu sonhei com o paraíso. Acordei e li no jornal que o capitalismo havia morrido de vez, já não existiam burgueses, nem oligarquias. Já não havia Estado também, as pessoas haviam simplesmente percebido que ele nunca tinha sido de fato necessário. Saí as ruas e vi as casas que serviam à especulação sendo ocupadas por humanos. Vi as pessoas pintando os muros retratando suas loucuras interiores sem nenhum policial os perseguindo por atentado contra o patrimônio. Melhor do que isso, me dei conta de que já não haviam policiais. Ao invés de eucalipto estavam agora plantando comida de gente, e não de empresário. Vi que as igrejas estavam vazias, pois o ser humano agora tinha amor próprio, não precisava mais de um ser superior de amor infinito. Os jornalistas já não estavam engravatados, e na televisão quase não tinha notícia vinda dos Estados Unidos. A rede globo havia saído ar. Os professores viraram alunos, pois começaram a aprender o ensinar. As escolas deixaram de ser quadradas, pois parou-se de ensinar o escravizar das mentes. Inúmeras pessoas choravam incessantemente por sentir pela primeira vez sua liberdade a tanto tempo reprimida, outras o faziam simplesmente por finalmente poder chorar sem precisar de uma razão para isso. Coloquei a mão no bolso e vi que não havia mais dinheiro, mas já não fazia diferença, pois ter dinheiro havia perdido o sentido, ele era agora apenas um pedaço de papel e não mais a base da existência humana. Na cidade apareceram esculturas bizarras, as ruas agora estavam repletas de poesias sem aparente significado. Felizmente agora as coisas não mais precisavam ter um significado. Finalmente podíamos delirar em paz, podíamos ser loucos sem ter medo. Havia teatro de rua em todas as partes, no lugar dos shopping centers tínhamos agora feiras ao ar livre, a música estava em todo lugar. Finalmente eramos livres para não mais ter que amar ao próximo como a nós mesmos. Amávamos somente àqueles que queríamos, e mesmo assim, nunca como a nós mesmos.
Depois de um dia inesquecível na minha cidade do paraíso voltei pra casa para dormir e para louvar ao ser humano. Infelizmente, depois de dormir eu acordei.

sábado, 11 de julho de 2009

La anarkiisto kaj la demokrato



Demokrato: Saluton! Mi havas donacon por vi.
Anarkiisto: Kio ĝi estas?
Demokrato: Ĝi estas la plej bona afero el la mondo.
Anarkiisto: Sed, kio?
Demokrato: La demokratio.
Anarkiisto: Ĉu vere?
Demokrato: Jes, kaj ĝi estos bonega por vi. Bonvole akceptu ĝin.
Anarkiisto: Mi pripensos pri la afero.
Demokrato: Ne, vi devas nepre akcepti.
Anarkiisto: Kial? Mi ne komprenas.
Demokrato: Ĉar ĝi estas la plej bona afero el la mondo.
Anarkiisto: Povas esti, sed malgraŭ tio, mi mem devas elekti ĉu akcepti aŭ ne.
Demokrato: Kompreneble ne.
Anarkiisto: Kial ne?
Demokrato: Ĉar ĝi estis demokratie elektita.
Anarkiisto: Sed ne gravas. Eble mi ne ŝatus ĝin.
Demokrato: Se vi ne akceptas demokration, do vi estas diktatoro.
Anarkiisto: Kompreneble ne. Mi volas trudi nenion al iu. Mi nur volas regi mian propan vivon.
Demokrato: Diktatoro!
Anarkiisto: Ne! Vi estas la diktatoro. Vi volas trudi vian demokration al mi.
Demokrato: Ne, ne! Mi estas demokrato, kaj demokratio ne estas trudebla.
Anarkiisto: Do, mi ne volas ĝin.
Demokrato: Diktatoro! Vi estas minaco al la demokratio. Policistoj, malliberigu lin!
(Post kelkaj jardekoj, la anarkiisto mortis en la malliberejo. La demokratio finfine mortigis lin.)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Irrepresentáveis


Meu amigos, não é nenhuma novidade que os políticos sejam, de maneira geral, corruptos e incapazes de resolver os nossos problemas. Isso é um fato praticamente inquestionável. Mas o que dizem os moralistas conservadores sobre isso? Eles sempre dizem que a culpa é do povo que não sabe escolher os seus repersentantes. Que se o povo fosse instruído, ele seria capaz de escolher políticos bons que cuidariam bem de nossos países e que assim não teríamos tantos problemas.
Senhores, não existe mentira maior do que essa, não acreditem nesses fanfarrões, primeiro porque quando eles falam isso, enchem o peito e o dizem se excluindo desse “povo que não sabe votar”, como se a culpa fosse dos outros que não votaram nos candidatos deles, como se os seus candidatos fossem mudar alguma coisa. Falam isso para não admitir para si mesmos que são tão incapazes e medíocres quanto a massa, querem se achar superiores, pobres coitados.
Mas a pior parte desse argumento é a idéia de que somos nós quem realmente escolhe nossos representantes. Isso é um absurdo tão grande que eu confesso que não entendo como as pessoas não conseguem perceber a estupidez desse pensamento. O ser humano é único, e apesar de apresentarmos semelhanças entre nós, somos todos direfentes. Pensamos diferentemente, nos vestimos de forma diferente, comemos coisas diferentes, sonhamos coisas diferentes, desejamos coisas difentes, acreditamos em coisas diferentes, e por aí vai. Só aqui no Brasil somos mais de 180 milhões de pessoas cada uma com suas particularidades e diferenças perante as outras. Dentro dessa diversidade toda se vem em época de eleições com uns 5 ou 6 candidatos, sendo que quase sempre apenas 2 ou 3 verdadeiramente participam da disputa, dizendo-se que devemos escolher o que vai nos representar. Nós somos obrigados a resumir toda a nossa diversidade em apenas uns 2 ou 3 modelos, que inclusive não fomos nós que escolhemos, mas que foram impostos em cima da gente como únicas opções. Eles já foram escolhidos, e tudo que podemos fazer é dizer: Quero esse ou aquele. Mas e se eu não quiser nenhum deles? E se eu não quiser essa forma de governo? E se eu simplesmente não quiser ser governado por ninguém? Eu tenho essa opção? Claro que não, a única escolha que eu posso fazer é entre os 2 ou 3 já escolhidos. Não posso fugir disso, não tenho esse direito. Eles me dão apenas essa mísera e ridícula capacidade de escolha e ainda querem que eu acredite que a culpa é minha por não escolher direito os meus representantes. Isso só pode ser uma piada de mau gosto.
Senhores, não sejamos mais idiotas, nós não podemos mais nos resumir simplesmente a alguns poucos modelos, nós somos muito mais do que isso. Chega de aceitar esses personagens sempre se impondo como nossas únicas opções, chega de acreditar que somos representáveis. Não, nós não o somos. Cada um tem desejos, idéias, vontades, crenças que não podem ser representadas por ninguém além de si mesmos. Sejamos livres para decidir o rumo de nossas vidas, sejamos livres para governar a nós mesmos, sejamos livres para criar nossa própria moral, sejamos simplesmente livres. A democracia representativa é uma ilusão que no fundo não passa de uma tirania disfarçada. Só não enxerga isso quem não quer.

terça-feira, 7 de abril de 2009

La voko



Al vi mi devas diri la veron
mi estas neniu imperiisto
mi ne plu eltenas la anglan
kaj tial mi iĝis esperantisto

Ĝi estas mia lingvo kara
la lingvo de la feliĉeco
ĝi apartenas al neniu lando
sed al la homa libereco

Homaro hodiaŭ mi vin vokas
ĉar ni devas ŝanĝi tiun aĉan mondon
tiu tasko ne estas facila
sed ni ankoraŭ havas la tutan estonton

segunda-feira, 9 de março de 2009

Nia lingvo / Nossa língua


Hodiaŭ mi volas rakonti personan sperton kion mi havis pri esperanto. Ĉi jare en januaro mi vojaĝis al mia najbara lando kiu nomiĝas Argentino kaj tie en kelkaj urboj mi gastis ĉe esperantistoj. Tio estis tre bona sperto por mi ĉar krom esperanto mi povis praktiki ankaŭ la hispanan kiu estas lingvo en kiu mi ankaŭ tre ŝatas paroli. Tie kiam mi kunsidis kun la esperantistoj kaj iliaj geamikoj, ni ofte babilis en esperanto, en la hispana kaj kelkfoje eĉ en la portugala. Mi tre ĝuis tian diversecon sed tie mi povis rimarki ion tre interesan favore al esperanto kiel internacia komunikilo.
Mi parolas la hispanan preskaŭ tiel bone ol kiel mi parolas esperanton, kaj uzante ĝin tie mi havis neniun gravan problemon por kompreni kaj esti komprenita. Tamen dum kiam mi parolis la hispanan kun la argentinanoj mi havis neeviteblan senton, mi ĉiam sentis min kiel eksterlandano. Tio ne okazis nur pro mia elparolo sed ankaŭ pro kulturaj kialoj ĉar por mi, kvankam mi tre ŝatas ĝin, la hispana ĉiam estos eksterlanda lingvo, kaj por la argentinanoj ĝi estas tute la malo. Tial nia babilado kompreneble ne okazis en egala nivelo.
La mirindaĵo okazis dum kiam ni babilis en esperanto, tiam tiu eksterlandana sento tute malaperis, tiam ne plu temis pri uzi mian aŭ ilian lingvon, sed temis pri uzi nian lingvon. Tiam ni ne plu estis homoj el malsimilaj landoj, ni estis samideanoj babilante en nia propra kaj komuna lingvo, ni estis egalaj. Tiam la vorto eksterlando subite malaperis el nia vortaro, kaj tiel mi povis feliĉe rimarki ke esperanto vere estas miraklo.

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Hoje eu quero contar uma experiência pessoal que eu tive com o esperanto. Esse ano, em janeiro eu viajei ao meu país vizinho que se chama Argentina e lá em algumas cidades eu fiquei hospedado com esperantistas. Essa foi uma experiência muito boa pra mim, pois além do esperanto eu pude praticar também o espanhol, que é uma língua na qual eu também gosto de falar. Lá quando eu me reunia com os esperantistas e seus amigos, nós geralmente conversávamos em esperanto, em espanhol e as vezes até mesmo em português. Eu adorei essa diversidade, mas lá eu pude perceber algo bem interesante em favor do esperanto como ferramenta de comunicação internacional.
Eu falo espanhol praticamente tão bem quanto eu falo esperanto, e usando-o lá eu não tive nenhum problema grave para compreender e ser compreendido. Porém quando eu falava espanhol com os argentinos eu tinha um sentimento que era inevitável, eu sempre me sentia como um estrangeiro. Isso não acontecia somente por causa da minha pronúncia, mas também por razões culturais, pois pra mim, apesar de eu gostar muito dele, o espanhol será sempre uma língua estrangeira, e para os argentinos ele é exatamente o contrário. Por causa disso as nossas conversas compreensívelmente não aconteciam em nível de igualdade.
O maravilhoso acontecia quando nós conversávamos em esperanto, nesses momentos esse sentimento de ser estrangeiro desaparecia completamente, nesses momentos não se tratava mais de falar a minha língua ou a língua deles, mas sim de falar a nossa língua. Nesses momentos nós não mais éramos pessoas de países diferentes, nós éramos coidealistas conversando em nossa própria e comum língua, nós éramos iguais. Nesses momentos a palavra estrangeiro subtamente sumia do nosso dicionário, e dessa forma eu pude felizmente perceber que o esperanto verdadeiramente é um milagre.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Mia dua esperanta poeziaĵo


Knabino el malproksime
...
En alia lando nun estas vi
tre fore de ĉio, tre fore de mi
mia korbato vin senĉese sopiras
kaj la pasio el mia animo al vi ĉiam iras
...
Via beleco estas neimitebla
via vizaĵo ne forgesebla
viaj okuloj min tuj pasiigis
kaj de via koro mi tuj enamiĝis
...
Ho mia karega knabino
kial estas vi tiel fore?
venu al mi forigi la doloron
kiu kuŝas profunde en mia koro
...
Knabino mi devas diri la veron
tiun distancon mi ne plu povas teni
ĉar sen vi ne estas feliĉec'
kaj sen vi malbona estus la estontec'
...
Pri vi mi ĉiutage pensas
vin mi deziras senlime
bonvole tuj venu al mi mia kara
knabino el malpoksime

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A solução é destruir o planeta


Ultimamente tem-se conversado muito sobre a crise econômica mundial, e até por conta disso tem se dado pouca atenção à crise ambiental pela qual passamos agora. Como todos sabemos o meio ambiente está pedindo socorro já a algumas décadas, isso não é novidade nenhuma, e por mais que não queiramos aceitar essa realidade, inevitavelmente a destruição do meio ambiente significaria também a nossa destruição, portanto esse é um problema muito grave, que exige bastante cuidado.
Um olhar um pouco mais atento a essa questão nos mostra facilmente que uma das principais causas da destruição da natureza é o consumismo exagerado dos seres humanos, não apenas pela extração de matérias primas da natureza em si, mas por toda cadeia de problemas que inevitavelmente isso gera. Para se produzir alguma coisa se gasta energia, e quanto mais se quer produzir mais energia tem-se que gastar, e quase todas as formas de produção de energia que temos geram poluição, seja por emissão direta de poluentes ou seja por impactos ambientais devido a construção das usinas, e não há energia de sobra no planeta para que se possa aumentar a produção sem que novas fontes geradoras sejam construídas, a maioria dos países passa hoje também por uma crise energética, basta olhar por exemplo o caso do EUA que saí pelo mundo desesperadamente buscando fontes de energia em todo lugar, como o petróleo do Iraque e da Venezuela, e o etanol aqui do Brasil, para poder sustentar o consumismo irracional da sua população. Além da questão energética há também a questão das matérias primas utilizadas na fabricação dos bens de consumo, que muitas das vezes são bens não renováveis e que muitas vezes a sua extração causa danos irreparáveis ao meio ambiente, basta ver por exemplo a produção de celulose que necessita de grandes extensões de terras plantadas com eucalipto, que a longo prazo (as vezes não tão longo) acaba com a biodiversidade do local, tornando o solo muitas vezes infértil depois de algumas décadas. Outro problema causado pelo consumo excessivo é a produção de lixo. Na compra de coisas novas, as velhas acabam na maioria das vezes sendo descartadas, e mesmo que parte delas seja reaproveita ou reciclada, muita coisa acaba indo para o lixo, e o tratamento do lixo é algo muitas vezes difícil de se fazer e na maioria dos lugares é até inexistente. Não só o lixo tóxico proveniente de equipamentos eletrônicos e materiais químicos, mas todo tipo de lixo, até mesmo orgânico trás problemas para a natureza quando simplesmente despejado em algum lugar ou queimado em algum incinerador.
Eu poderia me estender um pouco mais aqui mostrando como o consumismo é ruim para o meio ambiente mas acho que isso não é tão necessário agora, até por ser algo um tanto quanto óbvio. Mas a conclusão a que eu quero chegar aqui não é essa, o que eu quero é mostrar a relação entre a crise econômica e a destruição da natureza. Nessa época de crise vemos os economistas, os empresários e os chefes de estado, dizendo que para minimizar os efeitos da crise é necessário evitar que a população deixe de comprar, ou seja, de consumir, pois a queda no consumo acaba gerando desemprego, que diminui o poder de compra da população, diminuindo o consumo e gerando mais desemprego, é uma bola de neve que tem que ser contida, e a solução para isso é tentar de alguma forma fazer com que a população tenha condição de continuar consumindo, ou pelo menos de não diminuir muito o seu consumo. Senhores, não precisa ser nenhum gênio para concluir daí que há uma contradição enorme entre minimizar a crise e preservar o meio ambiente. O capitalismo mais uma vez está em crise, o que não é nenhuma novidade, pois capitalismo e crise são como dois amantes que ficam juntos por uns anos, depois terminam mas após algum tempo acabam sempre voltando um para os braços do outro, o engraçado e assustador disso tudo é ver que a solução óbvia para se amenizar a crise é diretamente oposta a preservação do meio ambiente, ou seja, a salvação do capitalismo significa, nada mais nada menos, do que a destruição do planeta.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A violência das leis (Liev Tolstói)




Muitas constituições foram criadas de modo a fazer com que as pessoas acreditassem que todas as leis estabelecidas atendiam a desejos expressos pelo povo. Mas a verdade é que não só nos países autocráticos, como naqueles “supostamente” mais livres as leis não foram feitas para atender a vontade da maioria, mas sim a VONTADE DAQUELES QUE DETÊM O PODER. Portanto elas serão sempre, e em toda a parte, aqueles que MAIS VANTAGENS POSSAM TRAZER À CLASSE DOMINANTE E AOS PODEROSOS. Em toda a parte e sempre, as leis são impostas utilizando os únicos meios capazes de fazer com que algumas pessoas se submetam à vontade de outras, isto é, pancadas, perda da liberdade e assassinato. Não há outro meio.
Nem poderia ser de outro modo, já que as leis são uma forma de exigir que determinadas regras sejam cumpridas e de obrigar determinadas pessoas a cumpri-las (ou seja, fazer o que outras pessoas querem que elas façam) E ISSO SÓ PODE SER OBTIDO COM PANCADAS, PERDA DA LIBERDADE E COM A MORTE. Se as leis existem, é necessário que haja uma força capaz de obrigar as pessoas a respeitá-las. E só há uma força capaz de fazer com que alguns seres se submetam à vontade de outros e esta força é a violência. Não a violência simples, que alguns homens usam contra seus semelhantes em momento de paixão, mas uma VIOLÊNCIA ORGANIZADA, usada por aqueles que têm o poder nas mãos para fazer com que os outros obedeçam à sua vontade.
Assim, a essência da legislação não está no sujeito, no objeto, no direito, na idéia do domínio da vontade coletiva do povo ou em qualquer outra condição tão confusa e indefinida, mas sim no fato de que AQUELES QUE CONTROLAM A VIOLÊNCIA ORGANIZADA DISPÕEM DE PODERES PARA FORÇAR OS OUTROS A OBEDECÊ-LOS, fazendo aquilo que eles querem que seja feito.
Assim, uma definição exata e irrefutável para legislação, que pode ser entendida por todos, é esta:
“AS LEIS SÃO REGRAS FEITAS POR PESSOAS QUE GOVERNAM POR MEIO DA VIOLÊNCIA ORGANIZADA, QUE, QUANDO NÃO ACATADAS, PODEM FAZER COM QUE AQUELES QUE SE RECUSAM A OBEDECÊ-LAS SOFRAM PANCADAS, A PERDA DA LIBERDADE E ATÉ MESMO A MORTE.”

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O novo imperador


Eu confesso que já fui por muito tempo uma pessoa bastante otimista, alguém que vivia acreditando que o mundo estava para se tornar um lugar melhor e que coisas boas estavam para acontecer, porém hoje, depois de ler, aprender e viver algumas coisas eu percebo que na maioria das vezes o otimismo que eu tinha era fruto apenas da minha ignorância e da minha incapacidade de compreender direito as coisas.
Hoje o Barak Obama foi eleito presidente dos EUA e por isso pessoas do mundo inteiro estão comemorando por acreditar que isso vai significar uma mudança efetiva nas políticas desse país, vejo muitos esperançosos de que os terríveis anos de Bush se tornarão em breve coisa do passado e de que o mundo esta agora entrando em uma época melhor. Senhores! Eu mais do que todos vocês gostaria de acreditar que os EUA parariam de invadir outros países, que eles parariam de se auto-intilular como donos do mundo, que eles parariam de olhar para a América latina como se ela fosse o quintal da casa deles, que eles acabariam com o embargo econômico, comercial e financeiro a Cuba que já dura 46 anos, que os imigrantes nesse país passariam a ser vistos com solidariedade e que a dívida dos países pobres seria toda perdoada. Gostaria muito de acreditar que os próximos anos marcariam o fim desse imperialismo americano sangue-suga, arrogante e prepotente no mundo.
Meus caros amigos, eu sonho com essas coisas todos os dias, gostaria muito de poder acreditar que tudo isso está para acontecer, mas infelizmente o meu bom senso não me permite. Eu sei que existem diferenças entre Mcain e Obama, mas todas elas são apenas maquiagens dentro de uma mesma visão política Imperialista baseada sempre no lucro, com os EUA sendo eternamente os donos do mundo. Sei que dentro desse mesmo contexto o Mcain, o Bush e sua cambada são bem mais conservadores, com idéias que muitas vezes beiram o próprio fascismo, mas mesmo assim não se enganem, o fundo ideológico e político do Obama é o mesmo dos outros, é o amor desenfreado ao capitalismo, ao nacionalismo, ao militarismo e a soberba americana, só muda a forma, mas o conteúdo é o mesmo.
De fato, não creio que haverá mudança significativa nenhuma e é uma pena que toda essa onda de otimismo mundial esteja baseada apenas em uma mera ilusão. Do fundo do meu coração eu gostaria muito de poder compartilhar desse sentimento que tomou conta de muitas pessoas hoje, mas infelizmente não dá, já cansei de me enganar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Eleição e alienação


Estamos muito perto de uma eleição aqui no Brasil e gostaria de fazer algumas considerações sobre o tema. É muito comum ouvir nessas épocas que um dos problemas aqui no Brasil é que a população é muito alienada e que por isso acaba quase sempre escolhendo os políticos errados, e que daí surgem nossos inúmeros problemas. Mas porquê será que a população é alienada? Claro que não existe uma única razão para isso, é bem verdade que um pouco disso passa pelo problema de educação e coisa e tal, mas não quero entrar nesse detalhe, o que quero mostrar aqui é que nós todos somos alienados principalmente porque o sistema de governo, o sistema de poder que existe é totalmente alienante. Vou explicar melhor: Aqui no Brasil existem eleições a cada 2 anos, ou seja, a cada 730 dias, isso significa que participação direta da população nas decisões que dizem respeito a como governar a sociedade se limita a apenas uma vez a cada 730 dias dizer quero que esse ou que aquele nos governe nos próximos anos. Durante todos os outros 729 dias a única coisa que cabe ao cidadão comum é ser governardo e obedecer às decisões tomadas pelos seus eleitos, que efetivamente são os únicos que governam. Por isso que todos nós somos alienados, nós somos completamente excluídos das decisões tomadas, são sempre eles que decidem por nós, eles nos enganam com essa mentira descarada que é a “democracia representativa”, essa ilusão absurda de que o povo pode efetivamente ser representado por uma dúzia de políticos, essa representatividade é apenas mais uma forma de dominação, uma maneira de manter a população governarda e enganada, a fazendo pensar que é ela que está no poder. Efetivamente não importa se o governo é de direita ou de esquerda, ele sempre será governo e a população governada, democracia só pode de verdade existir se for participativa, direta, exercida pelas próprias mãos do povo.
O engraçado disso tudo é saber que essa coisa toda acontece com o nosso consentimento, pois no dia da eleição quando damos o nosso voto a algum candidato, seja ele quem seja, estamos dizendo sim a isso tudo, estamos mostrando aos nossos governantes que queremos continuar sendo governados. Esse “direito de cidadão”, esse “voto consciente”, continuará mantendo todos nós nessa maldita alienação. Não aceite essa submissão. Vote nulo!

Para terminar, aqui vai uma citação do Bakunin:

"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana".

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Salvem os bancos! / Savu la bankojn!


Há alguns dias o senhor Bush revelou sua vontade de injetar 700 bilhões de dólares na economia americana (mais precisamente nos bancos) para salva-lá da crise em que essa se encontra no momento. Não sei se essa medida realmente será efetivada e tampouco quero entrar no mérito se ela resolverá o problema ou não, o que quero dizer aqui é outra coisa.
O mundo tem muitos problemas há muito tempo, as pessoas tem muitos problemas há muito tempo, e uma coisa que eu acho engraçada é que eu nunca escutei nada sobre um pacote de 700 bilhões para ajudar a pobreza no mundo, para amenizar a fome dos esfomeados, para construir casa para os sem-tetos, ou então para curar os doentes que não tem acesso a médicos e medicamentos. Agora, quando os bancos ficam doentes e falidos, Ah! Isso não! Há de se fazer algo. Tomem 700 bilhões!
Enfim, mais uma vez fica claro que o que realmente importa nessa sociedade capitalista é o dinheiro e quem o tem, já o ser humano, Ah! Esses não fazem a menor diferença. Que morram de fome!

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Antaŭ kelkaj tagoj sinjoro Bush rivelis lian volon pri meti 700 bilionojn de dolaroj en la usuna ekonomiko (pli precize en la bankoj) por savi ĝin kontraŭ la krizo en kie ĝi troviĝas nun. Mi ne scias se tiu ago vere efektiviĝos kaj mi ankaŭ ne volas diskuti se ĝi solvos la problemon aŭ ne, kion mi volas diri ĉi tie estas alia afero.
La mondo havas multajn problemojn de antaŭ longe, la homoj havas multajn problemojn de antaŭ longe, kaj mi pensas ke estas tre remarkinda ke mi neniam aŭdis ion ajn pri donaĵo de 700 bilionoj por helpi la malriĉeco je la mondo, por helpi la malsatantojn kontraŭ la malsato, por konstrui hejmojn al la sen-hejmantoj aŭ por kuraci la malsanulojn kiuj ne havas kuracistojn kaj medicinojn. Tamen, kiam bankoj malsaniĝas kaj bankrotiĝas, Nu! Tio ne! Oni devas fari ion. Prenu 700 bilionoj!
Finfine, alifoje oni povas vidi ke la vera gravaĵo en tiu kapitalisma societo estas la mono kaj kiuj ĝin posedas, aliflanke, la homoj, Nu! Tiuj estas tute malgravaj. Ke ili mortu pro malsato!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Mia unua esperanta poeziaĵo


Poezio pri verda revo

Nia flago estas verda
kaj la amo nia gvidant’
nia direkto estas la paco
kaj nia ilo, esperant’

Pri senlima mondo ni revas ĉiutage
kaj ni klopodas por mirinda estontec’
Se esperanto eterniĝus tutmonde
ĉies estus la feliĉec’

Karaj geamikoj miaj
ne sidiĝu laceme sur iu benk’
ĉar kune ni devas marŝi
rekte al la fina venk’

domingo, 11 de maio de 2008

A ilusão do sufágio universal (Mikhail Bakunin)


Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.

Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.

Na suíça, assim como em outros lugares, a classe governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, operários e camponeses, que obedecem suas leis. O povo não tem tempo livre ou educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de ato, se não por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países a igualdade política é apenas uma ficção pueril, uma mentira.

Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e econômicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as idéias, e a vontade do povo? É possível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a burguesia é dirigida principalmente por seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta os interesses do povo. É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros dos governos cantonais são eleitos, direta ou indiretamente, pelo povo.

É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que ficção.

sábado, 19 de abril de 2008

A culpa é do Fidel / La kulpo estas de Fidel


Não, esse não é um texto sobre Fidel Castro, na verdade eu apenas queria fazer aqui uma propaganda de um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos, é um filme francês que se chama “La faute à Fidel / A culpa é do Fidel ”. Apesar do nome, a história não tem nada a ver com Fidel e nem com Cuba, o filme conta a história de uma garotinha francesa de uns 9 anos de idade que tem pais comunistas, avós burgueses conservadores e estuda em uma escola católica, isso tudo em meio a uma época (1970) em que o mundo vivia conturbações políticas como a chegada de Allende ao poder no Chile e a ditadura do general Franco na Espanha. O legal do filme é que ele mostra todas essas coisas de um ponto de vista de uma garotinha de 9 anos, além de mostrar como que isso afeta o seu crescimento. Realmente vale a pena assistir, ainda mais para aqueles que querem fugir um pouco dos filmes Hollywoodianos de sempre.


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Ne, ĉi tio teksto ne temas pri Fidel Castro, fakte mi nur volis fari reklamon pri unu el la plej bonaj filmoj kiujn mi vidis lastatempe, ĝi estas franca filmo kiu nomiĝas “La faute à Fidel / La kulpo estas de Fidel”. Kvankam ĝia nomo, la historio tute ne temas pri Fidel aŭ Kubo, la filmo rakontas la historio de franca knabino kiu aĝas pli malpli 9 jarojn, havas komunistajn gepatrojn kaj burĝajn konservemajn geavojn, kaj studas en katolika lernejno, tio ĉio dum epoko (1970) kiam la mondo trapasis politikajn malordaĵojn kiel la alveno de Allende al la povo en Ĉilio kaj la diktaturo de la generalo Franco en Hispanio. La rigardindaĵo el la filmo estas ke ĝi montras tiujn aferojn per vidpunkto el naŭ-aĝa knabino kaj ankaŭ kiel tio influas sian kreskadon. Ĝi estas vere vidinda, kaj eĉ pli por tiuj kiuj volas iomete fuĝi el la ĉiamaj filmoj el Hollywood.


sexta-feira, 11 de abril de 2008

Anarkia ebleco / Possibilidade de anarquia


Ofte oni diras ke anarkio estas tre bela ideo, sed ke ĝi tamen tute ne eblas. Ĉu tio pravas? Oni diras ke la homoj ne pretas vivi anarkie ĉar ofte ili ne estas sufiĉe bonkoraj. Mi konsentas ke la malbonkoreco estas grava obstaklo por ke oni atingu anarkian societon, fakte ĝi estas obstaklo por ke oni atingu ĉiojn bonajn aferojn, tamen kelkfoje mi pensas ke la malbonkoreco ne nur estas la kaŭzo de nia nuna socio, sed precipe ke ĝi estas ties efiko. La socio en kiu ni vivas forte influas niajn pensojn kaj agadojn, se ni do ŝanĝu la socion, ni iel ankaŭ ŝanĝu la homojn mem. Tamen kompreneble tiu ŝanĝo devas okazi nur libervole.

Kelkfoje oni demandas al mi: Ĉu la mondo pretas por anarkio? Mi vere ne scias tian respondon, sed laŭ mi tio ne estas la korekta demando, unue oni devas demandi: Ĉu mi pretas por anarkio? Fakte oni ne devas atendi la pliboniĝon de la mondo por pliboniĝi sin mem, se vi kredas en pli belan socion kaj se vi jam povas iel ĉiutage vivi laŭ tia ideo, do kion vi atendas? Ne gravas kion pensas la mondo, ne gravas ke la aliaj ankoraŭ ne komprenas tian ideon, kio gravas estas ke vi vivu laŭ viaj pensoj kaj laŭ via volo, certe jam ekzistas multajn aliajn homojn kiuj ankaŭ pretas vivi anarkie.

Unufoje, grava anarkiista pensisto kiu nomiĝis Errico Malatesta jam diris: “Ne gravas do se anariko okazos hodiaŭ, morgaŭ aŭ post dek jarcentoj, kio gravas estas ke oni iru en tiun direkton hodiaŭ, morgaŭ kaj ĉiam.”

Do, sanon, pacon kaj anarkion al ĉiuj!


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Constantemente se diz que a anarquia é uma idéia muito bonita, mas que porém ela não é realizável. Será que isso é verdade? Se diz que os homens não estão prontos para viver anarquicamente pois muitas vezes eles não são boas pessoas. Eu concordo que a maldade muitas vezes é um grande obstáculo para que se atinja uma sociedade anárquica, na verdade ela é um obstáculo para que se atinja qualquer coisa boa, porém as vezes eu penso que a maldade não é apenas causa de nossa sociedade atual, mas que ela é principalmente seu efeito. A sociedade em que nós vivemos influencia fortemente nossos pensamentos e nossas atitudes, logo se nós mudássemos a sociedade, de alguma forma nós também estaríamos mudando as pessoas em si, porém, compreensivelmente essa mudança tem que acontecer voluntariamente.

As vezes me perguntam: Será que o mundo esta pronto para a anarquia? Sinceramente não sei esse tipo de resposta, mas para mim essa não é a pergunta correta, primeiramente há que se perguntar: Será que eu estou pronto para a anarquia? De fato as pessoas não devem esperar a melhora do mundo para melhorar a si mesmos, se você acredita em uma sociedade mais bonita e já pode, de alguma forma, todos os dias viver de acordo com esse pensamento, então o que você está esperando? Não importa o que o mundo pensa, não importa que os outros não compreendam essas idéias, o que importa é que você viva de acordo com os seus pensamentos e suas vontades, certamente já existem muitas outras pessoas que também estão prontas para viver a anarquia.

Uma vez, um importante pensador anarquista, que se chama Errico Malatesta já disse: “Não se trata, portanto, de chegar à anarquia hoje ou amanhã, ou em dez séculos, mas caminhar rumo a anarquia hoje, amanhã e sempre”.

Então, saúde, paz e anarquia a todos.


quarta-feira, 19 de março de 2008

Do you speak english?


Certo dia estava sentado conversando com uma amiga da República Tcheca e com um amigo da Suíça, ao princípio conversávamos sobre músicas e um deles me perguntou se no Brasil as pessoas escutavam muitas músicas vindas dos países vizinhos, dizendo a verdade falei que aqui nós basicamente, além de músicas brasileiras, só escutamos músicas vindas do EUA, com raras exceções. O engraçado foi que a resposta dos dois à mesma pergunta foi igual a minha, nos seus países praticamente só se ouviam musicas feitas no próprio país ou então músicas americanas. Depois disso começamos a conversar sobre filmes, e mais uma vez foi engraçado verificar que com os filmes, tanto na televisão como nos cinemas, acontecia a mesma coisa, filme estrangeiro, quase sempre do Tio Sam.
Estávamos em um encontro de esperantistas e depois dessa conversa saímos perguntando às outras pessoas as mesmas coisas, e confirmamos que na Holanda, Colômbia, Dinamarca, Itália, entre outros, o mesmo se passava, enfim, isso é internacional.
Porque será que isso acontece? Será que os filmes americanos são muito melhores que os demais? Os cantores de lá são melhores? A cultura do EUA é muito mais interessante do que as outras? Com certeza nada disso. As vezes nós não percebemos mas a imposição do inglês como língua internacional funciona como mais uma ferramenta do domínio imperialista norte-americano. É uma imposição que leva povos vizinhos e amigos a não saberem nada um sobre o outro. Por exemplo, qual foi a ultima vez que você leu alguma notícia sobre o Uruguai? Fiz uma breve pesquisa nos canais da TV a cabo aqui de casa e descobri que dos canais estrangeiros 82% são americanos, que coisa, não?
Vemos o mundo ficar cada vez mais massificado, vemos pessoas de todos os lugares assimilando e colocando em prática valores importados da cultura americana, que na maioria das vezes não tem nada a ver com sua própria cultura. A imposição de uma língua nativa como língua internacional tem esse problema, isso é incompatível com a enorme diversidade cultural que existe no planeta, essa imposição dizima costumes, massifica as pessoas, faz línguas menores desaparecerem, enfim, não respeita nenhum tipo de diversidade, diversidade que é algo inerente aos seres humanos.
Aceitar o inglês como língua internacional é aceitar tudo isso que eu disse acima, é aceitar o domínio e a imposição ideológica-cultural de uma nação perante todas as outras, é concordar com a própria submissão. Por isso é que eu gosto tanto do esperanto, não apenas porque é fácil de se aprender, mas principalmente porque é uma língua neutra, é uma língua que não é de ninguém e ao mesmo tempo é de todo mundo, é uma ferramenta lingüística a favor da liberdade e da diversidade do ser humano, por isso costuma-se dizer: Para cada povo sua língua, para todos os povos, esperanto. Aprender esperanto é muito mais do que apenas conhecer mais uma língua, aprender o esperanto é lutar por um ideal de liberdade e de verdadeiro respeito às diferentes culturas. Por isso eu o amo tanto, por isso eu sempre falo sobre ele, e é por isso que no mundo todo existem muitos outros iguais a mim.

terça-feira, 11 de março de 2008

Io pri anarkio


Por montri al la homoj ion pri anarkio, mi trovis etan tekston de grava anarkiista pensisto kiu nomiĝas Joseph Proudhon kaj mi tradukis ĝin al esperanto kun la helpo de mia sveda amiko Alf. Laŭ mi kvankam simpla kaj eta, la teksto estas ja bona. Do, jen ĝi:

"La anarkistoj imagas societon en kiu la homaj rilatoj ne estus faritaj per leĝoj aŭ per truditaj aŭ elektitaj aŭtoritatoj, sed faritaj per interkonsento inter ĉiuj sociaj interesoj kaj la sumo de la sociaj moroj - ne mobilizitaj per leĝoj, rutinoj aŭ per superstiĉo - sed je senĉesa evoluo, ŝanĝante por plaĉi al la ĉiamaj kreskantaj homaj bezonoj je libera vivo, akcelita pro la scienca progreso, pro novaj inventaĵoj kaj pro la senĉesa evolucio de la pliboniĝantaj ideoj. Do ne ekzistus aŭtoritatoj por direktigi ĝin. Neniu homo direktigus alian homon."


Verŝajne baldaŭ mi metos ĉi tien aliajn tekstojn pri anarkio.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Algumas coisas que andei lendo por aí ...


No meio da minha nova busca por textos sobre anarquia acabei encontrando algumas pessoas que viam na filosofia taoísta algumas semelhanças com o ideal anárquico. Fiquei bem curioso, até porque eu não sabia nada sobre o taoísmo, então resolvi pegar um livro sobre esse tema pra ver do que se tratava. Acabei comprando o Tao Te Ching, que foi o livro que serviu como obra inspiradora para o taoísmo, e confesso que fiquei maravilhado com muitas coisas que estavam escritas lá. O livro é composto por poemas, e de fato me pareceu que alguns deles lembram bastante a filosofia anarquista no sentido de que as pessoas devem se autogovernar e não ser obrigadas a fazerem as coisas pela força das armas ou pelo poder das leis. Enfim, achei o Tao Te Ching uma leitura bem interessante, e só para ilustrar vou deixar aqui um dos poemas que eu mais gostei. Aproveitem!

A força do agir sem esforço

Pela retidão se governa um país e pela prudência se conduz um exército.

Mas é pela não-ação que é regido o Universo.

Como saber se isto é verdade? São estes os fatos: É evidente por si mesmo.

Num reino a multiplicidade de proibições gera a pobreza do povo.

Quando mais proibições existem, tanto mais o povo empobrece.

Quanto mais incentivos para aumentar o lucro, maior a desordem no clã e no Estado.

Quando mais destreza possuem os homens, mais estranhas são as artimanhas para vencê-la.

Quando mais aprimorada é a legislação e a censura, maior número de assaltantes aparecem.

Quando os homens só pensam em si mesmos, abundam os ladrões.

Prepara-se a revolução quando os homens só pensam em si mesmos.

Abundam ladrões e salteadores quando o governo só confia em leis e decretos para manter a ordem.

Pelo que diz o sábio: Não intervenho! E eis que por si mesma prospera a vida na sociedade.

Não intervindo em seus negócios e o povo por si mesmo alcançará a felicidade.

Mantenha-me imparcial! E por si mesma floresce a ordem.

Não nutro desejos pessoais!

E eis que por si mesmo tudo vai vem.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Novos rumos


Como pôde-se perceber, o ultimo texto que escrevi foi em esperanto. Isso é uma tentativa minha de tornar o blog mais internacional, para que pessoas de todos os povos possam ler sobre algumas das coisas que eu penso, além disso espero que de alguma forma essa prática de escrever textos em esperanto (que espero que seja mais frequente a partir de agora) sirva como estimulo para os interessados aprenderem essa língua que eu tanto amo e que tanto influenciou o meus pensamentos e a minha forma de ver o mundo. Enfim, desculpem pela longa ausência aqui nesse blog, mas pra mim ela foi extremamente proveitosa, espero que bons textos estejam por vir.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Reveno


Post multe da tempo mi finfine reskribas ĉi tie. Mi iomete pardonpetas al la legantoj sed mi bezonis tiun tempon por pensi pri kelkaj aferoj, miaj ideoj ofte ne estis tre klara ĉe mia kapo. Dum la lastaj monatoj multajn aferojn okazis ĉe mi, do pro tio mi iomete ŝanĝis kelkajn pensojn, kaj tio okazis precipe pro esperanto, tial mi pensis ke mia unua reskribado devus esti en esperanto. Nuntempe finfine mi trovis mian vojon, nun mi ne plu timas pri miaj pensoj, tio ne signifas ke ili neniam ŝanĝos, sed signifas ke nun mi ne dubas pri kion mi devas kredi. Miaj ideoj nun ofte temas pri anarkio, esperanto kaj vera libereco, poste mi klarigos pli bone kion mi pensas pri tiaj ideoj, do verŝajne baldaŭ mi metos aliajn tekstojn ĉi tie, tion mi esperas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Che Guevara


Nessa semana fazem 40 anos da morte do Che, por isso resolvi escrever algumas coisas que penso sobre essa figura tão idolatrada por uns e tão odiada por outros.

De fato Che Guevara matou muitas pessoas, ele era um guerrilheiro, vivia em época de guerras onde os revolucionários estavam sendo presos, torturados e dizimados por ditaduras militares bancadas pelo EUA. Pessoalmente eu sou contra qualquer tipo de violência, portanto não concordo com algumas coisas que o próprio Che fez, porém quando se conhece a situação que a América Latina vivia em meados do século XX, fica claro que qualquer tentativa de se fazer uma revolução pacífica seria uma explicita tentativa de suicídio, Che Guevara entendia isso.

Por volta do ano de 1950 em vários pontos da América latina estavam surgindo movimentos revolucionários, principalmente devido a condição de extrema pobreza em que grande parte da população vivia, pobreza essa causada em grande parte pela submissão de alguns governos a políticas imperialistas vindas de terras ao norte, que favoreciam ao grande latifúndio e as grandes empresas em detrimento da população. Nesse contexto, a alta burguesia juntamente com os militares desses países, contando com o apoio financeiro-militar-ideológico dos EUA, promoveram ditaduras em quase todos os países da América latina, para conter o avanço de qualquer ideologia contrária ao neoliberalismo burguês. Não preciso descrever aqui os horrores que uma ditadura militar causa a sua população, quem tem o mínimo de conhecimento já sabe.

A própria decisão do Che em se tornar guerrilheiro veio nesse contexto vivido pela América latina. Apesar da população estar vivendo num mar de pobreza e estar a favor de mudanças revolucionárias, quem mostrasse que era a favor de um socialismo, era preso, torturado e até mesmo morto. Isso ficou claro para ele quando passou alguns meses na Guatemala. Naquela época, depois de longos anos de governos totalitários, esse país estava vivendo pela primeira vez em sua história um governo democrático com um presidente eleito e várias medidas de caráter social estavam sendo tomadas, como por exemplo, um grande processo de reforma agrária, o que desagradou muito os grandes latifundiários e os EUA. Nessa época o Che foi para Guatemala com o objetivo de se tornar médico do estado para ajudar as comunidades agrárias e indígenas que sofriam muito por falta de medicamentos e médicos, foi nessa época também que começou a se engajar mais politicamente. Com a iminência de um golpe militar que sufocaria toda a revolução com um tremendo banho de sangue, Guevara viu que não haveria outra maneira senão a defesa da revolução através da luta armada e aquela época ficou marcada como a forja de um revolucionário.

A partir daí muitas coisas se sucederam, Che Guevara conheceu Fidel e participou ativamente da revolução cubana, tanto na derrubada do ditador Fulgêncio Batista como nos primeiros anos da revolução. Mas o que ficou marcado realmente na memória das pessoas era o total desapego do Che as coisas materiais e a capacidade de que ele tinha de viver em função daquilo que ele acreditava. Nessa época em Cuba, Guevara chegou a ser o segundo homem mais poderoso do país, apenas abaixo de Fidel, mas ele abriu mão disso pra voltar ao campo de batalha para lutar pela internacionalização da revolução. Em Cuba ele tinha poder nas suas mãos e uma vida aparentemente tranqüila, mas ele renegou tudo isso para viver como guerrilheiro na África e também em outros países da América, para lutar pelo povo. Che foi uma pessoa que literalmente entregou a sua vida pela causa que acreditava, Che foi uma das poucas pessoas que não foi corrompida pelo poder, e foi principalmente isso que o tornou uma figura tão idolatrada.

Enfim, existem muito mais coisas a se dizer sobre Guevara, muitas passagens interessantes sobre sua personalidade entre outras coisas, mas para não alongar mais o texto, vou ficando por aqui com uma ultima observação. A situação em que vivemos hoje é bem diferente da que o Che vivia, portanto creio que uma solução armada para nossos problemas está fora de cogitação, claro que essa conclusão pessoal também leva um pouco da minha ideologia pacifista de não-violência inspirada em Gandhi, mas quase a totalidade dos socialistas de hoje não é mais a favor desses métodos de guerrilhas, com apenas algumas poucas exceções. Apesar disso, penso que Che Guevara é uma figura que tem que ser lembrada, não como um exemplo de guerrilheiro, mas como um exemplo de um ser humano que mostrou total desapego a bens materiais, total desapego ao poder e colocou acima de tudo, inclusive acima da sua própria vida, o que ele acreditava, uma sociedade menos injusta e com mais igualdade.